Publicado em Teologia

VIDA ESPIRITUAL: CHAVE PARA A COMPREENSÃO HERMENÊNEUTICA DA SAGRADA ESCRITURA NA IGREJA

A Palavra de Deus sempre foi proposta como mediação privilegiada para a vida espiritual, pois ela mesma dá testemunho de si[1].  São Paulo nos apresenta que a Palavra de Deus é por excelência a comunicação da sabedoria que conduz a salvação pela fé que há em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada pelo Espírito Santo e tem como finalidade “ensinar, refletir, corrigir, educar na prática” para que o homem se aperfeiçoe nesse caminho rumo à santidade e assim pratique boas obras[2].

O Concílio Vaticano II, em sua Constituição Dei Verbum, afirma que a vida espiritual possibilita a novidade da compreensão da Palavra de Deus que se dá na Igreja. E cada vez mais essa vida espiritual vai crescendo e sendo aprofundada no decorrer da história. A compreensão se aprimora rumo à plenitude da Verdade Divina. E isso só pode acontecer graças à assistência continuada do Espírito Santo, aquele que é a fonte inspiradora e de compreensão da Sagrada Escritura e que age constantemente em sua Igreja[3].

O papa Bento XVI em seu discurso aos participantes do Congresso Internacional do Centenário de Nascimento do teólogo Hans Urs Von Balthasar, diz que a novidade que esse grande teólogo deixou para a Igreja foi a de entender e colocar em prática que a teologia, de maneira geral, deve sempre conjugar-se com a espiritualidade; a sua eficácia e profundidade dependem desse elemento essencial. Essa contribuição de Von Balthalsar nos remete também aos Padres da Igreja que, nos primeiros séculos do cristianismo, através de suas catequeses mistagógicas, já entendiam que por meio da lex orandi é que se compreende a lex credendi[4].

É importante ressaltarmos essa premissa, pois muitos pensam que utilizando a via espiritual, a reflexão hermenêutica pode perder seu caráter científico. Mas, pelo contrário, a valiosa contribuição de Balthasar foi de “fazer” teologia, fundamentado na espiritualidade. Assim, diz o papa, “a espiritualidade não diminui sua autoridade científica, mas imprime ao estudo teológico o método correto para poder chegar a uma interpretação coerente” [5]. A escuta eficaz da Palavra de Deus vivida pela Igreja e fortalecida pelo seu Magistério não sacrifica o caráter científico da hermenêutica, pelo contrário, dá a ela uma profunda compreensão para a reflexão na qual ela se propôs a fazer.

O lugar privilegiado, por excelência, de todo esse trabalho hermenêutico da Palavra de Deus é a Igreja. A Exortação Apostólica Pós Sinodal Verbum Domini diz “o lugar originário da interpretação da Escritura é a vida da Igreja. O Espírito Santo, que anima a vida da Igreja, é que torna capaz de interpretar autenticamente as Escrituras. A Bíblia é o livro da Igreja e, a partir da imanência dela na vida eclesial, brota também a sua verdadeira hermenêutica” [6].

E porque se faz necessário ressaltar essa afirmação? Toda a reflexão que propomos fazer até aqui tem como objetivo entender que o melhor caminho hermenêutico para compreender a Palavra de Deus é aquele fundamentado e baseado na vida espiritual, realizado na Igreja e pela a Igreja. Essa verdade pode ser vista por muitos como imposição, ou até mesmo presunção, mas o que acontece de fato é que “a Bíblia foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Somente com o “nós”, isto é, nesta comunhão com o Povo de Deus, podemos realmente entrar no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer dizer”. “O Livro é precisamente a voz do Povo de Deus peregrino, e só na fé deste Povo é que estamos, por assim dizer, na tonalidade justa para compreender a Sagrada Escritura. Uma autêntica interpretação da Bíblia deve estar sempre em harmônica concordância com a fé da Igreja Católica” [7].

Maximiliano Costa[8]


[1] BERNARD, Charles André. Introdução à teologia espiritual. São Paulo: Loyola, 1999.

[2] Cf. 2Tm 3,14-17

[3] DEI VERBUM, Constituição Dogmática. Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos e declarações. Petrópolis: Vozes, 2000. n 8.

[4] TABORDA, Francisco.  Da celebração à teologia. Por uma abordagem mistagógica da teologia dos sacramentos, 588-615. In Revista Eclesiástica Brasileira. Julho, 2004.

[5] BENTO XVI. Congresso Internacional do Centenário de Nascimento do teólogo Hans Urs Von Balthasar. Vaticano, 6 de Outubro de 2005.

[6] BENTO XVI, Exortação Apostólica pós-sinodal. VERBUM DOMINI, A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja. Brasília, Edições CNBB. 2010. n 29.

[7] Ibid. n. 30.

[8] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 3º ano de Teologia no IFTSC.

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Autor:

Instituto de formação de sacerdotes e religiosos da Província Eclesiástica de Goiânia.

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