Publicado em Poesia

POESIA DE UMA ALMA LABORIOSA

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Porque esgoto-me gemendo;

Todas as noites banho de pranto minha cama,

Com lágrimas inundo o meu leito.

Pois, de amargura meus olhos se turvam,

Esmorecem por causa de minhas dores.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Porque vivo atribulado,

De tristeza definham meus olhos,

Minha alma e minhas entranhas.

Pois minha vida se consome em amargura e desgosto,

Meus anos em gemidos.

Minhas forças se esgotaram na aflição,

Mirraram-se os meus ossos.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Porque tornei-me objeto de opróbrio para todos os inimigos e amigos,

Ludíbrio dos vizinhos e pavor dos conhecidos.

Pois, eis que minha vida se consome em tristeza.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Porque fogem de mim os que me vêem na rua.

Pois, fui esquecido dos corações como um morto,

Fui rejeitado como um vaso partido.

Fui caluniado e motivo de chacota.

Destarte, tramam contra a minha vida.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Porque são fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura me causou.

Pois, estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza.

Inteiramente inflamados os meus rins; não há parte sã em minha carne.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Pois, ao extremo enfraquecido e alquebrado, agitado o coração,

Lanço gritos lancinantes.

Porque, Senhor, diante de vós estão todos os meus desejos,

E meu gemido não vos é oculto.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Pois, palpita-me o coração,

Abandonam-me as forças,

E me falta a própria luz dos olhos.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Pois, sou como um surdo: não ouço; sou como um mudo: não abre os lábios.

Porque fiz-me como um homem que não ouve, e que não tem na boca réplicas a dar.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Porque eu dizia: Não verei mais o Senhor na terra dos viventes.

Não verei mais a luz entre os habitantes do mundo.

Pois, arrancam as estacas de meu abrigo, arrebatam-me como uma tenda de pastores.

Como um tecelão, enrolam a teia de minha vida, depois cortam-lhe o laço.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Porque, dia e noite estou desamparado, e grito até o amanhecer.

Como um leão, quebram-me todos os ossos.

Como a andorinha, dou gritos agudos e gemo como a pomba.

Meus olhos se cansam de olhar para o alto.

Os meus olhos noite e dia choram lágrimas sem fim

Pois, Senhor, estou em agonia, socorrei-me.

O tempo que me resta eu o arrasto, vivendo em amargura.

Restituí-me a saúde, fazei-me reviver.

Diácono Ueslei Vaz Aredes[1]


[1] Seminarista da Diocese de Itumbiara, no 4º ano de teologia.

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Publicado em Mariologia, Teologia

MARIA, MODELO DE ESPIRITUALIDADE TRINITÁRIA

“Ao Pai, no Filho, pelo Espírito

unido à Maria”.

Profunda relação com Deus, misterioso vínculo entre o divino e o humano, assim podemos definir espiritualidade. No caso de Maria, sua profunda relação com Deus faz brilhar o esplendor da divindade e a nobreza da humanidade[1]. Ela, mulher simples de Nazaré, de típicos traços femininos, é convidada, como todos nós, a estabelecer uma profunda, significativa e misteriosa relação com o Deus trinitário. Por ter vivido seu processo humano de compreensão e crescimento na fé e pelo o que Deus realiza nela a partir de sua livre disponibilidade, a temos como modelo de espiritualidade trinitária[2]. Na profunda relação de Maria com o Pai, com o Filho e com o Espírito evidencia-se a grandiosidade do encontro entre a impotência humana e a potência divina, a humana experiência afetiva de uma mãe com a efetiva realização da graça trinitária[3]. Maria é, por graça divina, sacramento de Deus no mundo, ícone do mistério trinitário[4], símbolo do mistério que abrange a verdade sobre Deus e sobre o homem na tríplice condição de virgem, mãe e esposa.

Como virgem, Maria se coloca de modo receptivo diante do Pai, como quem recebe, deixa-se amar, como o eterno Amado, o Filho. Ela é a virgem fiel, ícone do Filho, pois traz as marcas do eterno estar do Filho diante do Pai, do estar do Amado diante daquele que é eterno Amante. Maria, virgem, é também ícone do homem. Ela revela ao homem o desígnio do Criador mostrando que o homem foi feito por Ele e para Ele. Como Maria, o homem é chamado a ser ouvinte da Palavra pronunciada pelo Pai e convidado a se colocar diante d’Ele como amado.

Como mãe, sua gratuidade e bondade nos remete à fonte de amor que dá a vida e toma a iniciativa de amar, doar-se, como o eterno Amante, o Pai. Ao gerar o Filho, Maria manifesta a gratuidade irradiante do amor de Mãe, amor fontal, doador, gratuito, tal como o amor do Pai. Ela é ícone do Pai por evidenciar não só a ternura, mas também a fecundidade divina; não só a gratuidade irradiante de Deus Pai, mas também Seu amor visceral de mãe. Maria é ícone da humanidade, de todo ser vivente. Ela é protótipo da nova criação, evidenciadora do novo início do mundo. Nela se reconhece que cada ser humano é originalmente e estruturalmente convidado a amar, com a sublime vocação de se realizar amando.

Como esposa, Maria é a nova arca da aliança que une o céu e a terra, vínculo de comunhão entre o Pai, o Filho e o mundo, como o eterno Amor, o Espírito. O Espírito realiza em Maria o que Ele é no seio trinitário, vínculo de comunhão, sem confusão nem misturas. Por outro lado, Maria é ícone desse mesmo Espírito por ser humilde imagem feminina de vínculo de amor. Por obra do Espírito, ela é santifica e glorificada, concretizando eternamente a realização da esperança humana, tornando-a eterno Amor, como o Espírito Santo o é. Assim, Maria, Virgem, Mãe e Esposa, santificada e glorificada, revela, em sua biografia total, o plano de Deus para a criatura humana. Ela, a mulher nova, é ícone do homem novo, modelo acabado da antropologia teologal, do homem realizado na graça do Pai, segundo a imagem do Filho, mediante a ação do Espírito.

O misterioso vínculo de Maria com a Trindade sugere para nós uma espiritualidade profunda e enriquecedora. É o Espírito que conduz Maria a confiar, abandonar, a acolher a presença Divina em sua tenda e experimentá-la nas múltiplas relações. O resultado de sua relação com o Pai é a sua maternidade tornar-se símbolo do gerar da paternidade de Deus, participando assim, de modo privilegiado, do gerar, do amar do Pai no mundo. Quanto à sua relação com o Filho, podemos destacar sua livre alteridade de acolhê-lo e, posteriormente, em dá-lo ao mundo. Com efeito, tudo o que se realiza nela é obra do Espírito Santo: Maria é obra-prima d’Ele e, por isso, modelo para todo ser humano, graças à sua disponibilidade e gratuidade. Como o Espírito a conduz para o seio trinitário, conduz também a cada um a contemplar Maria, aprender com ela e, como ela, estabelecer uma profunda e misteriosa relação com a Trindade.

Mário Correia[5]

BIBLIGRAFIA BASE

FORTE, Bruno. Maria, a mulher ícone do mistério. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.

AA.VV. Maria e a Trindade: implicações pastorais, caminho pedagógico, vivência da espiritualidade. São Paulo: Paulus, 2002.


[1] cf. Lc 1,28.30.

[2] cf. Lc 1,26-38; Jo 2, 3.5; 19, 26.27..

[3] cf. Lc 1,37.

[4] cf Mt 1,16.20.23; Mc 6,3; Lc 1,35.48; 2, 51; 11,27; Jo 19,26.27; At 1,14; Ap 12,1.

[5] Seminarista da diocese de Barreiras, graduado em Filosofia e no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Resenhas

O PEQUENO PRÍNCIPE: A NOVIDADE DO ENCONTRO

“O Pequeno Príncipe” é um dos livros mais vendidos no mundo[1]. O livro de Antoine de Saint-Exupéry, escrito em 1943 atinge gerações diversas. Essa obra também serve de fonte de pesquisa para diversos ensaios e estudos na área da psicologia, filosofia, política, sociologia e pedagogia.

Dizem que sua leitura tem por fenômeno, o rompimento de barreiras de idades e personalidades. Tal peculiaridade se dá pelas densas e variadas interpretações que aparecem em cada nova leitura que se faz. É claro que esse fato ocorre com a leitura de qualquer outra obra, mas as novidades encontradas no “O Pequeno Príncipe” dialogam com as fazes da história de quem o leu em etapas diferentes da vida de forma bem peculiar. O contato com essa obra gera uma capacidade tamanha de identificação do leitor com o conteúdo do próprio livro, de identificação consigo mesmo e de encontro com outro.

Por exemplo, a última vez que li esse livro, fiquei extremamente intrigado com outra percepção que tive a do encontro do homem com sua história de vida. Com a percepção de todo o cenário: o avião, as viagens sobrevoando a China e o Arizona, a pane no deserto do Saara… foram propícios para eu perceber como aviador, sem planejamento algum, se deparou com a solidão, cujo estado se tornou favorável para encontrar-se consigo mesmo e, por conseguinte, com sua própria história “…preparei-me para empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte.”

Depois de todo cenário montado, com o surgimento quase que repentino e misterioso do principezinho, a “peça” estava pronta para consolidar o que eu havia suspeitado a respeito do encontro consigo mesmo. Tal conclusão se consolidou principalmente a partir da interpretação feita pelo príncipe diante do desenho que o aviador havia lhe mostrado…

Prefiro não comentar muito aqui sobre esse livro e sim conversar sobre ele. Prefiro permitir que o leitor interessado encontre essa obra sem muitos comentários alheios, a fim de preservar novas surpresas que ainda não percebi, para assim encontrar espaços para novas partilhas que encerram em encontros com a vida do próximo que vai além da minha limitada ótica. “É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.” Enquanto isso, encontrarei um espaço para ler novamente.

Arpuim Aguiar Araújo[2]


[1] É o terceiro livro mais vendido do mundo. Possui cerca de 134 milhões de exemplares vendidos, 8 Milhões no Brasil. Foi traduzido em mais de 220 línguas e dialetos. (http://www.opequenoprincipe.com/historia.html – acesso em: 03 de maio de 2012)

[2] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 1º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Cristologia, Teologia

ASCENSÃO DO SENHOR: UM CONVITE À MISSÃO DE CRISTO (II)

Continuação do post anterior, “Ascensão do Senhor: um convite à missão de Cristo (I)

E nós, como nos deparamos com este acontecimento? É mister ressaltar que em hora alguma devemos interpretar a expressão de “subir aos céus” como uma viagem espacial, por exemplo. Cremos como uma “outra maneira de confessar a nossa fé em Jesus Cristo, Senhor dos vivos e dos mortos, e no seu Espírito vivo e presente na comunidade” (ALVES, 1984 p. 167) A subida de Jesus ao Pai é um modo de expressar da glória de Jesus, vivo no seio de Deus. Um mistério narrado com traços fantásticos, na forma de um arrebatamento. Jesus está plenamente glorificado junto ao Pai. O fundamental é confessar com os Apóstolos que Jesus está vivo e foi constituído por Deus como único Senhor.

Que significa hoje a ascensão, em um mundo marcado pelo avanço da tecnologia, que substitui o homem em diversas funções através de máquinas? Um avanço técnico e, cada vez mais preocupante, da fome, da miséria, de milhões de crianças que morrem desnutridas, que são abandonadas, de outras a quem são negadas o direito à vida, de constituir família – através da técnica do aborto. Não queremos aqui ter uma solução para o mundo, apenas apontar algumas pistas de reflexão, indagações para tantos problemas que nos atingem. “Certamente não é tarefa direta da Igreja criar uma sociedade mais justa, embora lhe caiba o direito e o dever de intervir sobre questões éticas e morais que dizem respeito ao bem das pessoas e dos povos”. (VD, 2011, p. 184) Crer na ascensão é lutar pela vida, é fazer de tudo para que esta se torne digna, para que se tenha um pleno desenvolvimento do homem, e do homem todo. É alicerçar nos valores da verdade, da justiça, do amor e da liberdade nascidos na caridade que na “convivência humana é ordenada, fecunda de bens e condizente com a dignidade do homem, quando se funda na verdade; realiza-se segundo a justiça; é realizada na liberdade que condiz com a dignidade dos homens; é vivificada pelo amor, que faz sentir como próprias as carências e as exigências alheias e torna sempre mais intensas a comunhão dos valores espirituais e a solicitude pelas necessidades materiais”. (CDSI, 2011 p. 123-124)

Antes de ir para junto do Pai, Jesus deixa aos Apóstolos suas últimas recomendações, confia-lhes os últimos encargos, dá-lhes uma missão. Com a ascensão, os Apóstolos compreendem que a história de Jesus chega à sua plenitude. Entendem para sempre o verdadeiro e único sentido da vida e obra de Jesus que, mesmo sendo Deus, se faz homem e habita entre nós. Aquele que veio para servir e não para ser servido.  Do mesmo modo que é instituída a missão aos Apóstolos, esta também nos é dada: somos incumbidos de construir um Reino de justiça e de paz, tão almejado por Ele. Acreditar na ascensão é fazer tudo o que for ordenado por Cristo, assim como fora feito nas bodas de Caná, por meio da intercessão de Maria, mesmo que ainda não tenha chegado a Sua hora. É crer em suas palavras, suas ações, mesmo na desconfiança que nos atinge, de vez em quando. É fazer de tudo para melhorar as próprias condições em que vivemos, não somente no sentido material, mas, sobretudo, no espiritual, de vivência entre irmãos. Crer na ascensão é não dizer “É Deus que quer!” É cada um ser o primeiro e principal interessado em melhorar a própria vida sob todos os aspectos e meios que nos circundam. É mostrar que um mundo novo é possível, colocar em prática os ensinamentos do Cristo, adentrar em nossos corações e no âmago de nossa consciência superar nossos medos e dificuldades, que nos separam do amor de Cristo e dos irmãos.

Que a ascensão seja para cada um de nós, um momento de repensarmos não somente a subida de Jesus aos céus, mas nossa subida junto aos irmãos, a Deus, a nossa vida em comunidade. Ir ao encontro do outro, do desconhecido, que se tornará um membro novo de uma comunidade, convidado a fazer parte da família de Deus. Ide ao mundo, ensinai aos povos todos, convosco estarei, todos os dias, até o fim dos tempos, diz Jesus. Ouçamos o que Ele nos fala e nos ensina, adentremo-nos em suas palavras e, principalmente, coloquemo-la em prática.

Salvador Antonio do Nascimento Santos[1]

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, José. A fé nossa de cada dia: explicação do Credo em linguagem popular. São Paulo: Paulinas, 1984.

BENTO XVI, Exortação Apostólica pós-sinodal. VERBUM DOMINI, Sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja. Brasília, Edições CNBB, 2011.

Compêndio da doutrina social da Igreja / Pontifício Conselho “Justiça e Paz”; tradução Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – 7. ed. – São Paulo: Paulinas, 2011.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Instituto Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

McKENZIE, John L. Dicionário bíblico; tradução Álvaro Cunha et AL; revisão geral Honório Dalboso. 9. ed.  São Paulo: Paulus, 2005.


[1] Seminarista da Diocese de Goiás, no 2º ano de Teologia/Licenciado em Letras pela Universidade Estadual de Goiás – UEG/Pós-graduando em Missiologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC-PR.

Publicado em Cristologia, Teologia

ASCENSÃO DO SENHOR: UM CONVITE À MISSÃO DE CRISTO (I)

Ao tratarmos da ascensão, logo de princípio, vê-se a necessidade de entendermos tal vocábulo. Em um sentido laico, entende-se por ascensão, subida, elevação, escalada. Deriva do termo latino ascensio, substantivo feminino que indica o ato de ascender, ascendência, elevação.

McKenzie (2005 p. 80) define a ascensão de Jesus como “a transferência para o céu do seu glorioso corpo ressuscitado”, ou seja, ao mundo divino. Uma transferência que demanda a sua sobrevivência corporal, sua glorificação derradeira, seu êxodo do mundo material. Com a ascensão “Cristo deixa a terra e o universo criado, sem implicações especiais de tempo e lugar. A exaltação de Cristo e sua instalação à direita do Pai constituem um tema mais frequente do que o da ascensão enquanto tal. (McKENZIE, 2005 P. 80) É, singularmente, a sua exaltação e glorificação como sinal e marca do cumprimento derradeiro de sua missão. Missão esta que continua na figura dos Apóstolos.

“Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do reino de Deus”. (cf. At 1, 4) ordena aos discípulos que não se afastem de Jerusalém, mas que espere a realização da promessa do Pai, que recebam o Espírito Santo para serem testemunhas de tudo o que fora anunciado pelo Cristo. “Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo”. (cf. At 1, 9) No ápice da ascensão de Jesus, que se senta à direita de Deus Pai, todo poderoso, deparamo-nos com o cumprimento de sua vontade, expressa na figura dos Apóstolos que, após vivenciarem um momento de desorientação e confusão, saem e pregam por toda a parte. Ajudados pelo Senhor, que confirma suas palavras por meio dos sinais que os acompanhavam. (cf Mc 16, 20)

Ao se depararem com Jesus pregado na cruz e, depois, seu corpo colocado num sepulcro, os discípulos de certa maneira sentem que tudo o que fora almejado por Cristo se encerra. O que fazer sem a presença marcante de Cristo? Como continuar a missão sem Ele? Com sua queda, caem também os discípulos. Ficam perplexos, aterrados de temor, não ousam levantar os olhos (cf. Lc 24 1-8). Todavia, os mesmos discípulos que antes se encontravam abatidos, profundamente esmorecidos, encontram-se agora irradiantes, exultantes. Uma mescla de sentimentos invade os Discípulos, um sentimento de alento invade, apossa-se de seus corações: “O Senhor está vivo realmente! Deus o exaltou” (cf. At 5, 31); “subiu aos céus” (cf. 1Pd 3, 22); “está sentado à direita de Deus” (cf. Mc 16, 19). Deste modo, podemos expor que “a ascensão, a subida de Jesus ao céu, a sua glorificação e exaltação é também a ascensão, a subida, a glorificação e a exaltação dos discípulos e de todos aqueles que Nele acreditam”. (ALVES, 1984 p. 164)

Perguntar-se-á como registrar a experiência de fé vivida pelos discípulos naquele momento? Como exprimir tudo o que fazia arder os corações dos que se achavam a caminho de Emaús? Como esclarecer a presença vivificante do Espírito do Ressuscitado na comunidade ali reunida? Como explicar que aqueles homens que antes se encontravam totalmente desorientados, com medo, agora de forma heróica, corajosa, anunciam abertamente a Paixão, Morte e a Ressurreição do Senhor mesmo sabendo de suas implicações. Há somente um único modo de tentar humildemente responder tais implicações. Utilizar a nossa linguagem humana, pobre e limitada. Jesus sobe aos céus, senta-Se junto do Pai: é no céu que Deus “habita”. Em suas limitações, seus desafios diários, o anúncio da obra de Cristo é perpassado aos demais na figura dos Apóstolos, à luz do Espírito Santo.

O texto continua no próximo post.

Salvador Antonio do Nascimento Santos[1]

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, José. A fé nossa de cada dia: explicação do Credo em linguagem popular. São Paulo: Paulinas, 1984.

BENTO XVI, Exortação Apostólica pós-sinodal. VERBUM DOMINI, Sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja. Brasília, Edições CNBB, 2011.

Compêndio da doutrina social da Igreja / Pontifício Conselho “Justiça e Paz”; tradução Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – 7. ed. – São Paulo: Paulinas, 2011.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Instituto Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

McKENZIE, John L. Dicionário bíblico; tradução Álvaro Cunha et AL; revisão geral Honório Dalboso. 9. ed.  São Paulo: Paulus, 2005.


[1] Seminarista da Diocese de Goiás, no 2º ano de Teologia/Licenciado em Letras pela Universidade Estadual de Goiás – UEG/Pós-graduando em Missiologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC-PR.

Publicado em Filosofia, Lógica

OS PRINCÍPIOS LÓGICOS (II)

Continuação do texto “Os princípios lógicos (I)”.

O Princípio do Terceiro Excluído ou de Exclusão

Trata-se de mera decorrência dos dois primeiros princípios. É estabelecido da seguinte forma: “Entre o ser e o não-ser não existe meio termo”. Ou seja, dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma afirmativa e outra negativa, uma delas é necessariamente verdadeira e a outra necessariamente falsa. ‘A é x ou não-x’, não havendo terceira possibilidade. Toda coisa deve ser verdadeira ou então falsa e manifesta suas características pelas quais é identificada, ou simplesmente não é e, neste caso, exclui as possibilidades contrárias.

Em lógica, inexiste meio termo entre verdade e falsidade. Dizer que algo é “mais ou menos” indica apenas intensidade que já é identidade. “O café está mais ou menos quente, ou morno” é um estado definido. Entre o preto e o branco existe o cinza, que é, igualmente, uma cor determinada. Assim, se algo é, ele o será verdadeiro – de acordo com uma realidade, ou será falso – em desacordo com uma realidade. Nunca mais ou menos verdadeiro ou mais ou menos falso. Relativamente às proposições, formula-se princípio de Exclusão dizendo que “Toda proposição ou é verdadeira ou é falsa, não havendo intermediário entre a verdade e a falsidade”.

O Princípio da Razão suficiente

Este princípio é também considerado como um dos princípios lógicos. Pode ser exposto assim: um enunciado é verdadeiro ou falso; se pretende ser ele verdadeiro, necessita uma razão que o fundamente, que o apoie. Chama-se a essa razão de “suficiente” quando, por si, é bastante para servir-lhe de completo apoio. É uma razão suficiente, quando não falta mais nada para que o enunciado seja verdadeiro.

O Princípio do silogismo

Outro princípio também considerado entre os lógicos é o Princípio do silogismo, que se pode enunciar assim: “Se a implica b e se b implica c, a implica c”. A implicação, no sentido lógico-formal, é uma relação que afirma que um enunciado resulta necessariamente de outro. Assim, por exemplo, “a lei da gravitação implica a da queda dos corpos”.

Antônio José Resende[1]

REFERÊNCIAS

COPI, Irving M. Introdução à lógica. Trad. Álvaro Cabral. 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1978.
PINTO, Mário. Elementos Básicos de Lógica. 4. ed. Belo Horizonte: PUC-MG/FUMARC, 1984.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
KNEALE, William e KENEALE, Martha. O Desenvolvimento da lógica. 3. ed. Trad.de M. S. Lourenço. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.


[1] Professor no IFTSC e na PUC-Goiás

Publicado em Teologia, Trindade

… PAI DE ISRAEL

Continuação do post anterior “… PAI QUE CRIA“.

“O meu filho primogênito é Israel” (Ex 4,22).

“Tu, Senhor, és nosso Pai” (Is 63,16).

Quando Jesus nasceu, Deus já era Pai de um povo que preparava sua vinda. Foi para este povo que Deus primeiro se revelou e falou de muitos modos. Ele é um Deus que fala, testemunha os primeiros versículos da Bíblia. Toda vez que ele fala, sua palavra produz efeito, gera um ser. Ao falar, sai de si, de seu mistério e vai ao encontro do outro, de Israel. Desde o início, sua palavra é um anúncio da encarnação. Ela já traz as características de pessoa e delineia sua geração. A fala de Deus é sinal de sua reciprocidade para com o povo de Israel, reciprocidade antes exercida na relação com o Filho na eternidade. Essa proximidade se estreita quando Ele estabelece uma aliança com esse povo, prefigurando sua proximidade total na nova aliança. Em todos esses momentos Deus fala em linguagem humana para ser compreendido, mas continua sendo Palavra de Deus.

Sendo um Deus que fala, ele diz seu nome. “Eu Sou aquele que É”. Na tradição judaica o nome não é apenas a identificação de uma pessoa, mas designa seu próprio ser. Nesse caso, Deus e o seu nome são idênticos, mas também distintos. Ao dizer seu nome, ele se identifica e se entrega a Israel, mas permanece distinto, diferente do povo. Desse modo ele entra no mundo e permanece nele, de modo evidente, escolhendo um lugar para habitar, mesmo que o mundo não possa contê-lo. A revelação do nome é bastante significativa para a história da salvação. Quando veio a plenitude dos tempos, o nome deixou de habitar em um lugar para identificar um Homem, de nome incomparável, “nome sobre todo nome” que ‘manifesta o nome’ de Deus Pai.

O Deus Pai de Israel também falou por meio de anjo, mensageiro que o representa, fala como se fosse o dono da mensagem. Este enviado reforça a relação entre Deus e o povo de Israel. Ele torna visível o invisível, mostra a imanência, mas Deus permanece transcendente, até o envio do Anjo, na plenitude dos tempos. Outro meio pelo qual Deus se comunica a Israel, aproximando os laços de paternidade e filiação, são os profetas. Eles também são mensageiros que falam e agem em nome de Deus, revelando sua paternidade. Entre Deus e os profetas existe uma íntima e profunda relação, tão intensa que a Palavra de Deus é também palavra deles, os sentimentos de Deus são também deles. Eles não só portam a palavra, como também mediam a presença de Deus junto a seu povo. Também eles prefiguram o Profeta de Deus, o mensageiro que porta e é a mensagem.

Por meio destas e de outras revelações, Israel torna-se o “primogênito” de Deus neste mundo. Ele é a prefiguração da paternidade eterna de Deus para com seu Primogênito, seu Filho Unigênito. O próprio Deus disse ser “pai para Israel” e o povo reconhece isso ao acreditar que ele é o Criador, o Libertador que estabelece uma aliança e consolida assim uma relação de Pai e filho: o Pai que dá o ser e o filho que o recebe. Nessa relação, supõe-se a obediência, mas o que prevalece é o amor paterno, tão terno quanto o de mãe. Porém, Deus não quis que esse amor ficasse apenas para Israel, mas que fosse conhecido por todos os povos. O privilégio de Israel reveste-se então de responsabilidade para mostrar ao mundo seu Pai. Por isso, Israel prepara o mundo para vir o Filho que concede a todos a graça da filiação. E prova disso é que, ao longo da história, muitas vezes é evidente a promessa de um herdeiro, de um Filho que estenderia a herança à coletividade.[1]

Mario Correia[2]


[1] Texto originalmente publicado no blog do autor.

[2] Seminarista da Diocese de Barreiras, no 3º de Teologia no IFTSC.