Publicado em Ano da Fé, Catecismo da Igreja Católica, Magistério da Igreja

O HOMEM É CAPAZ DE DEUS (I) – SÍNTESE DOS §§ 26-35 DO CIC

PRIMEIRA PARTE – A PROFISSÃO DA FÉ

Daremos mais um passo, uma pequena abordagem, no nosso CIC. Desta vez adentraremos na profissão de fé: primeira seção, a saber, “O homem é capaz de Deus” (1º cap.), abordando os parágrafos 26 a 35. No próximo passo, semana que vem, abordaremos a segunda parte deste primeiro capítulo, com os parágrafos 36 a 49.

 

PRIMEIRA SEÇÃO – “EU CREIO”, “NÓS CREMOS” (§26)

Quando professamos a nossa fé, dizemos: Creio ou Cremos. Pois, a fé é a resposta do homem a Deus, que a ele Se revela e Se oferece, resposta que, ao mesmo tempo, traz uma luz superabundante ao homem que busca o sentido último da sua vida.

 

CAPÍTULO PRIMEIRO – O HOMEM É CAPAZ DE DEUS

I. O desejo de Deus (§§27-30)

O homem é, por natureza e vocação, um ser religioso. Vindo de Deus e caminhando para Deus, o homem não vive uma vida plenamente humana senão na medida em que livremente viver a sua relação com Deus. O desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso. Pois, de muitos modos, na sua história e até hoje, os homens exprimiram a sua busca de Deus em crenças e comportamentos religiosos (orações, sacrifícios, cultos, meditações, etc). Em suma, podemos chamar ao homem um ser religioso: mas esta relação íntima e vital que une o homem a Deus pode ser esquecida, desconhecida e até explicitamente rejeitada pelo homem. Tais atitudes podem ter origens diversas: a revolta contra o mal existente no mundo, a ignorância ou a indiferença religiosas, as preocupações do mundo e das riquezas, o mau exemplo dos crentes, as correntes de pensamento hostis à religião e, finalmente, a atitude do homem pecador que, por medo, se esconde de Deus e foge quando Ele o chama. Porém, se o homem pode esquecer ou rejeitar Deus, Deus é que nunca deixa de chamar todo o homem a que O procure, para que encontre a vida e a felicidade. Mas esta busca exige do homem todo o esforço da sua inteligência, a retidão da sua vontade, um coração reto, e também o testemunho de outros que o ensinam a procurar Deus.

II. Os caminhos de acesso ao conhecimento de Deus (§§31-35)

Criado à imagem de Deus, chamado a conhecer e a amar a Deus, o homem que procura Deus descobre certos caminhos de acesso ao conhecimento de Deus. Estes caminhos para atingir Deus têm como ponto de partida criação: o mundo material e a pessoa humana. São:

O mundo: a partir do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo, pode-se chegar ao conhecimento de Deus como origem e fim do universo.

O homem: com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade, o homem interroga-se sobre a existência de Deus. Nestas aberturas, ele detecta sinais da sua alma espiritual. Gérmen de eternidade que traz em si mesmo, irredutível à simples matéria, a sua alma só em Deus pode ter origem.

O mundo e o homem atestam que não têm em si mesmos, nem o seu primeiro princípio, nem o seu fim último, mas que participam do Ser-em-si, sem princípio nem fim. Assim, por estes diversos caminhos, o homem pode ter acesso ao conhecimento da existência duma realidade que é a causa primeira e o fim último de tudo, e a que todos chamam Deus.

Diac. Ueslei Vaz Aredes[1]


[1] Seminarista da Diocese de Itumbiara, no 4º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Homilias, Teologia, Trindade

TRINDADE: FUNDAMENTO DA VIDA CRISTÃ

(Solenidade da Santíssima Trindade, 03/06/2012)[1]

  Evangelho: Mt 28,16-20

 “Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

 

Caríssimos irmãos e irmãs,

 1. Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade. A princípio podemos indagar sobre qual a necessidade de tal festa, ou, por qual razão ela nos é proposta. Em virtude do que Ela, a Santíssima Trindade, significa para nós, temos muito a comemorar. Toda a ação da Igreja é movida por Ela e Nela se realiza. Toda a História da Salvação, da criação até a vinda de Cristo, se deu por Seu dinamismo. Cada pessoa da Trindade, na unidade da distinção e sem confusão de papeis, opera a Graça que lhe cabe na hora devida. Assim, gostaria de relembrar a missão que cada pessoa da Trindade, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, realizou no decorrer da história salvífica e continua realizando em nossas vidas. Na origem e no fim de tudo está a comunhão dessas três pessoas. Uma não existe sem a outra; na ação de uma, todas as outras estão presentes.

 2. O livro do Gênesis inicia afirmando que “no princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). E o livro da Sabedoria diz: “Sim, tu amas tudo o que criaste, não te aborreces com nada do que fizeste; se alguma coisa tivesses odiado, não a terias feito. E como poderia subsistir alguma coisa, se não a tivesses querido? Como conservaria sua existência, se não a tivesses chamado?” (11,24-25). Ora, essa é essencialmente a missão de Deus-Pai. Toda a criação é fruto de suas mãos. Na origem de tudo está Deus-Pai que quer dar início a uma história de amor; num relacionamento aberto e recíproco entre Ele e o ser humano. Um diálogo de liberdade em que o único privilegiado é o homem. A factualidade da criação não está restrita ao passado, mas tudo se faz continuamente. A criação é o momento em que Deus dá o seu ser, a sua existência ao mundo. Em categorias filosóficas: o ser é; perdura por todo o sempre. Algo não pode ser por um tempo e depois deixar de ser, assim, Deus continua a nos dar o seu ser. “Ele não só cria, mas mantém a obra criada” (CIC 301). Eis a necessidade que temos Dele! Afastar-se de Deus é afastar-se de sua essência, que é o amor. O cristão é cotidianamente convidado a se sentir parte da obra de Deus. No exercício da vida cristã somos introduzidos num relacionamento paternal com Deus. Se a nossa prática de fé não nos estimula a um contato com Deus criador, corremos o risco de nos sentirmos donos do mundo, e tudo será avaliado segundo as nossas vontades.

3. No ápice da história da salvação se encontra a figura de Jesus, o filho de Deus. Na carta aos Gálatas, Paulo afirma: Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” (4,4). A plenitude dos tempos significa o momento determinado por Deus para se manifestar de forma definitiva e substancial; não haverá outra. Em Cristo se manifestou toda a bondade de Deus. Por meio Dele sabemos que temos um Deus que é Pai, e assim, nos ensinou a chamá-lo. Por meio Dele somos agraciados com a condição de filhos de Deus, e, consequentemente, merecedores de seus bens. Portanto, Cristo opera a obra da redenção. Nele somos salvos do pecado e da morte e colocados numa situação de merecedores dos bens eternos. Cristo, o Filho, assume nossas faltas e na cruz nos coloca de novo em comunhão com Deus-Pai. O verdadeiro cristão é aquele que se identifica com Cristo-Filho e assume o mesmo caminho traçado por Ele. O Cristão nada mais é do que outro Cristo. Isso implica levar a fio todo o seu modo de ser, existir e pensar. “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5), assim se expressa São Paulo na carta aos Filipenses.

 4. Como garantia de sua eterna presença no meio de nós, o Deus-Filho nos prometeu enviar o seu Espírito. Não se trata de um espírito qualquer, mas do Espírito Santo, o paráclito. “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26). Ora, a obra do Espírito é essa mesma: recordar o que Jesus nos ensinou; garantir que Cristo estará sempre presente em nosso meio. A vinda do Espírito Santo significa que agora somos nós os continuadores da missão de Jesus. Ao passo que damos continuidade à missão de Jesus, realiza-se em nós a graça da santificação. Assim, o Espírito Santo tem a missão de santificar todas as coisas em Cristo. A Igreja vive e é movida pelo Espírito; podemos dizer que Ela é templo do Espírito Santo. Somos movidos e impulsionados por sua ação. Que bom seria se sempre fôssemos capazes de ser dóceis ao seu impulso! Muitas vezes abafamos sua ação e colocamos como centro motivador os nossos gostos e o nosso querer. A Igreja só realiza verdadeiramente sua missão quando Ela se prostra diante do suave, mas, ao mesmo tempo, intenso sopro do Espírito, capaz de abalar as estruturas e trazer a novidade e refazer todas as coisas. O Cristão deve clamar a presença do Espírito para que a nossa vida se torne uma oferta agradável a Deus.

 5. Caríssimos irmãos e irmãs, aqui está o mistério de nossa fé, o fundamento da vida cristã. A Palavra de Deus nos diz que devemos ser batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O batismo, porta de entrada para a vida cristã, nos insere desde o início nesse mistério. Quer dizer que passamos a fazer parte da Santissima Trindade; somos inseridos nela por meio de Cristo. E o fim último do fiel é a sua participação plena na comunhão da Trindade. Fomos gerados por Ela no batismo e repousaremos Nela no fim de nossa vida. Por conseguinte, o discípulo é aquele que vive sob o dinamismo da Santíssima Trindade. Que deixa ser conduzido por Ela. Que estabelece uma relação fiel e saudável com cada uma das três pessoas.

 6. Que Deus, uno e trino, nos dê a graça de sermos sensíveis para percebermos sua presença atuante em nosso meio. E assim, entrarmos no ativo relacionamento de amor da Trindade, para que, desse modo, sejamos criaturas novas, a fim de restaurar todas as coisas no amor.

 

Paulo Ricardo Moreira Vivaldo[2]


[1] Homilia proferida pelo autor na Disciplina “Homilética” e indicada pelo prof. Pe. Joaquim Cavalcante para publicação no Blog do Instituto.

[2] Seminarista da Diocese de São Luis de Montes Belos, no 4º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Antropologia, Apresentação, Artigos Científicos

EM BUSCA DE SENTIDO: PROCURA POR ESPIRITUALIDADE – UMA SÍNTESE

ImagemMarcas indeléveis na história da humanidade foram deixadas pela modernidade. Depois do promissor e esperançoso século XIX, sucedeu-se o turvo e cético século XX e hoje se fala de pós-modernidade marcada pela fragmentação do sujeito, pautada pelo consumismo, afetada pela insegurança decorrente das verdades abaladas e, portanto, em busca de sentido[1]. É nesse cenário que se situa o homem na esteira de busca e de realização. É também nesse terreno fecundo que as ciências humanas encontram seu objeto de investigação: o próprio homem. O interessante é que há um substrato comum entre as diversas ciências, um mesmo objetivo: buscar sentido, encontrar respostas para aprender a viver e promover a realização humana. Diante disso, é fato: a busca de sentido é uma atitude comum, que todos fazem; porém, ao mesmo tempo, é uma busca individual.

O psiquiatra Viktor Frankl (1905-1997) analisou a situação do homem atual e verificou que não poucos vivem a “crise de sentido” ou “o vazio existencial”. Quando tudo parece estar resolvido, tudo indo bem tecnicamente, uma pergunta brota em seu interior como uma esfinge: “sobreviver? Mas para quê”?[2]. Para este autor, a busca por sentido foi desconsiderada ao longo dos tempos ou, em muitas ocasiões, foi tratada como as patologias. Ele afirma que ela “é uma característica distintiva do ser humano” e não é apenas um desejo, mas uma realidade, uma necessidade específica, irredutível. É um “valor de sobrevivência” que se dá na capacidade de “orientar a própria vida em direção a um ‘para que coisa’ ou ‘para quem[3]’”. É buscando sentido e, por conseguinte, transcendendo-se que se aprende a viver.

São cada vez mais comuns os discursos de que o homem de hoje vive em “crise de sentido”. Nessa conjuntura, a filosofia se apresenta como tentativa de dialogar com as perguntas emergentes dessa situação, promovendo a reflexão. Entre as correntes de pensamento, há algumas que chamam a atenção para a constante e sistemática ‘redução do humano’, suprimido dimensões irredutíveis e não menos reais de sua existência. Um dos pensadores que se destaca nessas correntes é o judeu Martin Buber (1887-1965) que desafia o homem atual a refletir sobre a simplicidade das relações e seu valor ontológico. Ele entende que o homem não vive sem se progredir nas ciências, sem a técnica, mas é convicto de que viver para a ciência ou existir pautado pela técnica não realiza sua humanidade[4]. Para ele, o homem encontra o sentido da existência e sua concretização no relacionar-se com o seu semelhante. Porém, importa saber se na atualidade ainda é possível essa simples e desafiadora tarefa. Trata-se de uma relação ontológica possível se se o homem confronta consigo, se se abre à relação gratuita, presencial, imediata e recíproca[5]. Mas, para o encontro relacional não se fechar entre um Eu e um Tu, reduzindo o outro a um objeto, tal como o raciocínio técnico-científico, Buber propõe uma terceira dimensão, a relação com Deus, para onde convergem todas as relações interpessoais e quem as livra da objetivação. É Ele o sentido, o significado dos significantes atributos simbólicos da relação pessoal inter-humana[6].

Para os dois autores, o “sentido da vida” não está separado do contexto em que se vive. Constata-se que a exigência humana de buscar sentido é uma resposta à sua estrutura capaz de efetivá-lo. É uma busca que se traduz na procura por aspirações elevadas, sair de si, transcender, seguindo uma progressiva autenticidade. Por outro lado, o “sentido” não é criado nem improvisado: é descoberto, é encontrado, reconhecido e livremente assumido, acolhido pelo homem. Portanto, a busca de sentido não coincide com a busca por uma espiritualidade orientadora de sentido, de integração, caracterizada por uma profunda relação com Deus e, por conseguinte, com o outro[7]? Em outras palavras, a crise de sentido não é uma crise espiritual? Importa ainda considerar que se entende por espiritualidade uma experiência que faz o homem transcender-se, sair de si e viver uma profunda relação que o eleva e converte essa experiência mística em vida, em expressões de valores, em aprendizado que o tenciona para além da existência temporal e material.

Mário Correia[8]

**Síntese do Artigo apresentado na Jornada Filosófica e Teológica do IFITEG, no dia 09.05.2012.


[1] Dois autores parecem pertinentes aqui: Stuart Hall com a tese da “crise de identidade” e Zygmund Bauman com a tese da “sociedade do consumo” ou “modernidade líquida”. Os dois propõem repensar as estruturas atuais.

[2] FRANKL, Viktor E. Um sentido para a vida. Psicoterapia e humanismo. Aparecida- SP: Ideias e letras, 2005. p 15.

[3] Ibidem, p. 29.

[4] cf. BUBER, Martin. Eu e Tu. 10ª ed. São Paulo: Centauro, 2006. pp. 53, 74.

[5] Cf. ibidem, pp. 53, 74.

[6] Cf. ibidem, p. 101

[7] cf. BERNARD, Charles André. Introdução à teologia Espiritual. São Paulo: Ed. Loyola, 2005. p. 88.

[8] Seminarista da diocese de Barreiras, graduado em Filosofia e no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Ano da Fé, Cristologia, Magistério da Igreja, Teologia, Trindade

INTRODUÇÃO À PRIMEIRA PARTE DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA (CIC)

ImagePretendemos fazer um caminho pedagógico semelhante a uma escola da fé. Nada mais justo que começar com a origem e a profissão da fé. Adentraremos na primeira parte do nosso catecismo: a “profissão da fé”. Exploraremos os primeiros concílios ecumênicos de caráter cristológico e trinitário, no qual foi discutido sobre a divindade e a humanidade de Jesus e sobre as três pessoas da Santíssima Trindade: um único Deus em três Pessoas, a saber, uma única essência em três Pessoas Distintas.

Constataremos que as dúvidas de fé dos primórdios eram semelhantes as nossas. Destarte, afirma Santo Agostinho: “devemos compreender para crer e crer para compreender”. Portanto, vamos buscar dar razões de nossa fé. Jamais esquecendo que a razão e a fé devem caminhar e estar completamente unidas: semelhante aos nossos pulmões ou semelhante às duas asas dum pássaro.

De início é necessário lembrar que a “profissão de fé” (o creio ou credo), é dividida em quatro partes. Quando professamos nossa fé nos domingos e solenidades afirmamos que cremos em: 1) Deus Pai Todo-Poderoso, 2) Jesus Cristo Salvador, seu único Filho – e que não teve irmãos uterinos ou sanguíneos, 3) no Espírito Santo e 4) na Igreja Una, Santa, Apostólica e Católica.

A parte: “profissão da fé” do Catecismo da Igreja Católica (CIC) inicia-se no parágrafo 26 e vai até o parágrafo 1065 do mesmo. Em suma, é uma parte completamente dogmática, cristológica, antropológica e eclesiológica.

Do parágrafo 26 ao 66 o CIC destaca dois movimentos, a saber, um imanente-antropológico no qual “o homem é ‘capaz’ de Deus” e outro transcendente-cristológico: “Deus vem ao encontro do homem”. Apresentaremos estes dois movimentos no próximo texto.

Diácono Ueslei Vaz Aredes[1]


[1] Seminarista da Diocese de Itumbiara, no 4º ano de teologia.

Publicado em Antropologia, Antropologia Filosófica

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO FUNDAMENTO DO VALOR E DA DIGNIDADE DO SER HUMANO

A palestra apresentada pelo padre Edmar José da Silva, mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e membro do clero da Arquidiocese de Mariana, foi sobre o seguinte tema: “Considerações acerca do fundamento do valor e da dignidade do ser humano”.

Segundo o conferencista, o Concílio Ecumênico Vaticano II é totalmente embasado através de uma antropologia, mas esta possui um cunho teológico, o que não limita uma reflexão filosófica acerca da dignidade apresentada por tal concílio.

Atualmente, o tema dignidade do ser humano é algo totalmente invocado e evocado por vários segmentos de reflexões, mas existe uma pergunta: o que vem a ser tal dignidade? Tal resposta pode vir sobre os vários aspectos reflexivos, como a filosofia, a economia, o direito, dentre outras. Mas, para tal reflexão acerca da dignidade do ser humano, se usará a reflexão filosófica para bem definir o tema. Primeiramente, se usará o filosofo dominicano Santo Tomás de Aquino para nos auxiliar e, após isto, usaremos o personalismo de Emmanuel Mounier para nos conceder elementos contemporâneos para a fundamentação de Santo Tomás de Aquino.

1 – Origens do conceito de pessoa

Padre Edmar bem acentuou o tema, dizendo que a discussão acerca da dignidade humana se situa como um problema de fronteira, na qual pode ser amplamente discutido entre a antropologia e a ética. Primeiramente, se deve fazer a seguinte pergunta: “O que é o homem?” Colocou-nos nos primórdios das artes cênicas, na qual surgiu o termo persona. Tal retorno às artes cênicas nos remonta dois termos: Identidade e comunicação.

O primeiro princípio é o de identidade, na qual nos remontamos aos teatros gregos, cujos artistas usavam máscaras (intituladas prosopon), que comunicavam os sentimentos do ator. O segundo possui o termo de comunicação, na qual o ator, através de sua máscara, representava uma expressão que comunicava algo a mais do que o aspecto anterior, tal termo era designdado pelos latinos como personare. Esta última designa uma relação, ou seja, para se ter uma comunicação, é necessário alguém que comunique e alguém e que este receba a mensagem, formando assim uma relação. E logo após, o termo persona fora sempre presente nas discussões cristológicas e trinitárias.

Segundo alguns historiadores, o primeiro pensador a mencionar o conceito “pessoa” em relação ao homem foi Santo Agostinho. Tal fato demonstra que o termo pessoa possui um aspecto cristão. Padre Edmar ponderou que, na antropologia o conceito de pessoa é usado de forma análoga.

2 – O conceito de pessoa para Santo Tomás de Aquino.

Para a definição aquiniana de pessoa, primeiro é necessário passar por Boécio, pois é nele que Santo Tomás de Aquino se embasou para dissertar sobre assunto.

Primeiramente, Santo Tomás de Aquino diz que a pessoa é substância. Ou seja, Santo Tomás afirma que a pessoa pertence a ela mesma, e isto além de ser metafísico também é uma consequência ética, pois pessoa tem valor em si mesmo, é uma substância primeira.

Segundo, Santo Tomás classifica como indivíduo, ou seja ele é idêntico a si mesmo e diferente dos outros, e esta conceitualização serve para todo ente. Isto significa de que todas as pessoas são insubstituíveis. Existe também a incomunicabilidade do ser, ou seja, um ser é impossível ser outro, este apenas assume algumas características, mas não asssume o outro ser totalmente.

Santo Tomás de Aquino chama atenção para a singularidade e para a individualidade de cada homem. Estes, por sua vez, distinguem-se de todas as outras coisas devido a sua capacidade de raciocínio. Mas padre Edmar utiliza a palavra reflexão, para ir além da capacidade de raciocinar.

Para Santo Tomás de Aquino, a característica que o ser humano possui de raciocinar está totalmente vinculada com a liberdade, pois o ato de raciocinar confere liberdade plena ao ser humano.

No campo da naturalidade e da cultura, segundo padre Edmar, não existe dicotomia entre ambos, pois o homem pertence tanto à natureza quanto a cultura, sem um prevalecer sobre o outro.

Outro termo acrescentado ao ser humano é a dignidade. Segundo Santo Tomás de Aquino, esta é uma constituição do ser humano. Esta dignidade no ser humano é algo de caráter indelével, ou seja, que não se pode retirar. Assim, podemos afirmar que ela é totalmente intrínseca ao ser.

3 – O personalismo de Emmanuel Mounier

Padre Edmar pontuou que em Emmanuel Mounier existe uma estrutura pessoal em dois momentos:

1º Pessoa é conversão íntima, ou seja, o ser humano tem um recolhimento, um domínio de si. Em Santo Tomás de Aquino, esta dimensão é a identidade.

2º A pessoa possui pudor: segundo Emmanuel Mounier, as pessoas espalhafatosas estão sempre fora de si, ou seja, elas possuem uma certa ausência de reflexão acerca de si (afrontamento). Padre Edmar pontuou que o ser humano, neste pensador, é comunicação, e esta comunicação é sempre um risco, mas para o pensador este risco é extremamente importante.

Mounier menciona que sua época é a época do despersonalismo, pois, de um lado, se tem o capitalismo e, de outro, o comunismo. O capitalismo é extremamente individualista, ou seja, o ser humano permanece fechado para o outro. Já no socialismo o grupo é mais vital do que a pessoa humana, ou seja, tudo em favor do grupo; se algum ser humano for contra o grupo este deve ser destruído em prol da vida da sociedade.

Padre Edmar também mencionou outro termo presente na filosofia de Emmanuel Mounier: O despojamento de si – a abertura ao outro. O conferencista também fez uma reflexão de que nossa cultura esta em uma via oposta ao despojamento.

Padre Edmar conclui que estamos imersos no despersonalismo e, conhecendo estes valores reais do ser humano, devemos colocá-los em prática na nossa cultura para transformá-la em uma cultura personalista, na qual se busca um resgate do próprio ser humano.

Evaldo Antônio Bueno Gonçalves[1]


[1] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 2º ano de Filosofia no IFTSC.

Publicado em Antropologia, Antropologia Teológica, Cristologia

A RELAÇÃO DO SER HUMANO COM DEUS UNO E TRINO REVELADO POR CRISTO

Este texto é de um resumo da conferência feita por P. Spencer Custódio Filho (SJ), na semana acadêmica do Instituto Santa cruz, em 06.06.2012. Construída segundo a compreensão de quem a produziu. Nela faz-se alusão a termos usados pelo conferencista, bem como a expressões na íntegra. Mas o conteúdo exposto neste resumo é de responsabilidade de seu autor.

A Igreja levou um longo tempo para assimilar a relação entre a teologia e as ciências humanas. O Vaticano II trouxe uma forte contribuição para uma revisão acerca do olhar sobre e para o homem. Temos aqui o primeiro momento em que a Igreja aborda o tema da antropologia, enquanto ciência. O Vaticano também colabora para um diálogo e aproximação com as ciências humanas, uma vez que, salvo exceções, a teologia era elaborada – fala-se aqui enquanto referencial – por uma filosofia dogmática.

No século XIX, diante da teologia liberal alemã (protestantes) e dos pressupostos metodológicos das ciências críticas no estudo bíblico e dogmático, há um estímulo no que e para o que toca a teologia cristã católica. Um convite à discussão (interpelação), enquanto referencial e interlocução. O fato do pouco contato com a bíblia é um fator que interpela no que toca a esta questão – lembrando que ainda hoje muitos cristãos católicos têm pouca relação com a Bíblia enquanto dado da Revelação. Assim podemos afirmar, também, que o Concílio Vaticano II “abriu um horizonte intelectual de leitura da Sagrada Escritura e elementos científico-culturais”.

Na virada do século XIX para o seguinte, Loysy provoca a uma “aplicação de métodos histórico-críticos no estudo da Sagrada Escritura e do dogma”, motivado pela convicção de que o “povo estava imerso na dúvida”. Houve um forte conflito com o pensamento oficial da Igreja, que procurou desacelerar tal discussão que, mais largamente, por outros campos e reflexões, se dava no limiar do século XX, mais que já antes vinha sendo elaborada. Houve, por parte da e na Igreja, uma “afirmação da neo-escolástica (do séc. XIX) e um distanciamento entre catolicismo e modernidade”.

No contexto do Vaticano II houve uma “lenta renovação” trazida pela reflexão de teólogos como Marechal, Lubac, Danielou, Congar e outros. No séc. XX,  houve uma evocação, muito presente no Vaticano II e até como propósito deste, de nos colocar (enquanto Igreja) e contextualizar no tempo presente, um convite a uma “modernização”. E, de fato, o Concílio conseguiu nos deslocar para o século XX, para aquelas reflexões que já vinham e se fortaleceram no início desse século. O Vaticano II usou uma linguagem nova, de aproximação/diálogo (evocação à atualização), de tal forma, que se abriu a “releituras bíblicas que mudaram a compreensão e a própria leitura da Bíblia e dos fatos” (vida/“cotidiano”).

Houve, por parte dos dominicanos franceses, uma renovação do tomismo da escolástica medieval. Esse contexto gerou uma grande contribuição para o estudo da teologia, com aceno para Karl Rahner (SJ), no tocante à antropologia. A teologia se lança “dentro” da vida das pessoas, uma vez que houve uma forte “aproximação entre antropologia e cristologia”. A questão do Cristo histórico ganha força e adentra profundamente por meio de muitas reflexões. A humanidade de Cristo o apresenta como pessoa que provoca paixão e estreita nossos laços com o Pai, pois Ele nos revela o Pai. Mediante uma leitura antropológica, temos a possibilidade e oportunidade de encontrar e ver muitas coisas novas e fascinantes, uma vez que o “humano de Jesus revela e autocomunica sua divindade”. Fala-se aqui de um cristo inserido no tempo (menos na dimensão do pecado).

Segundo P. Spencer (SJ): “A razão da encarnação é o ‘apaixonamento’ de Deus”.

Renato Eduardo da Silva Costa[1]


[1] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 1º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Eclesiologia

A ECLESIOLOGIA NO CONCÍLIO VATICANO II

Segunda-feira, 04 de junho, iniciamos a IV Semana Acadêmica do IFTSC. Abriu as nossas apresentações o Padre Mário de França Miranda, SJ[1], com a palestra: “ A eclesiologia no Concílio Vaticano II”. A sua fala foi norteada por três pontos refletidos pelo Concílio, embora não de modo aprofundado. Tais são os aspectos: a ação do Espírito Santo, a situação do laicato e a importância da vivência autêntica da fé.

“Todas as ações da Igreja são epicléticas”

Lembrando Yves Congar, o palestrante afirmou que “todas as ações da Igreja são epicléticas” e refletiu sobre a ação do Espírito Santo, que legitima a Igreja. Nas suas reflexões sobre os textos do CVII e nas conferências posteriores a ele, Congar destacou que o Espírito Santo é dado à Igreja (Jo 14,16) e que é ele, o Paráclito, que dá aos homens o poder de agirem em nome da Igreja. Por isso todos os membros são chamados a dar amplitude ao desígnio salvífico do Pai, anunciando o seu encontro com Cristo (IJo 1), na ação do Espírito. Logo, Ele não patrimônio exclusivo da Hierarquia e todos devem cooperar para que a Igreja chegue à plenitude da verdade (DV 8).

Cristo, o Missionário do Pai, recebeu a sua missão e, depois, a conferiu à Igreja; por isso, todos os membros devem ser também missionários e (DA 362), pois a Igreja não poderia ser sal na terra sem a missão do laicato (LG33). Pe. França Miranda afirmou expressamente: “a missão dos leigos não está no mandato da hierarquia, mas no do Espírito Santo”. Assim, “só haverá comunhão se existir uma estrutura de comunhão”.

O principal do cristianismo é a fé

A Igreja é sacramento: sinal e germe do reino de Deus. Por isso, ela tem que tornar presente a sociedade sonhada por Deus, que é o seu Reino. Para isso, deve dar testemunho da vivência autentica da fé à sociedade, de forma que esta se sinta chamada a seguir o Filho do carpinteiro.

Ao falar dos três pontos, Pe. França Miranda quis chamar a nossa atenção ao que deve ser melhor considerado e, consequentemente, vivido por nós, que somos pós-conciliares. Somente abertos à ação do Espírito Santo é que cumpriremos a missão dada à Igreja por Cristo, pois ela não é institucionalizada em um momento apenas, mas continuamente pelo Consolador. Todos os fiéis têm a mesma dignidade e por isso, aberta ao laicato, a Igreja conseguirá testemunhar que ela mesma é o reino de Deus aqui na terra.

Dennys Sales dos Santos[2]


[1] Padre Mario de França Miranda é Doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma, membro da Comissão Teológica Internacional e professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi assessor teológico do CELAM e é autor de vários livros de Teologia. (http://www.mariofranca.teo.br/)

[2] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 2º ano de Filosofia no IFTSC.