Publicado em Autores Renomados, Filosofia

SANCTI AURELII AUGUSTINI – SANTO AGOSTINHO DE HIPONA

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, na África do Norte, atualmente Suk Ahras, Argélia, em 13 de novembro de 354, filho de Patrício, homem pagão e de poucas posses, que no final da vida se converteu, e da cristã Mônica, mais tarde canonizada.

Agostinho estudou retórica em Cartago, onde aos 17 anos passou a viver com uma concubina, da qual teve um filho, Adeodato. Neste período ler Hortensius, obra de Cícero, que o despertou para a filosofia e para a leitura de do Antigo Testamento.

Decepcionado como proceder dos patriarcas e com a simplicidade do Antigo Testamento frente à obra de Cícero adere ao maniqueísmo. No entanto, depois ”de nove anos de erro” se afasta da seita por se sentir decepcionado com Fausto – um dos chefes maniqueu, homem louvado por sua sabedoria, “grande laço do demônio” (Confissões V, 3,3. apud 1Tm 3, 7) para Agostinho – que com o seu discurso nada pôde acrescentar, saciar a sede de Agostinho pela verdade. Agostinho viu nele apenas um grande orador que seduzia muitos por sua eloquência.

Após se decepcionar com a seita dos maniqueus, Agostinho viveu longo conflito interior – por toda sua vida –, voltou-se para o estudo dos filósofos neoplatônicos, especialmente as obras do neoplatônico Plotino, que o conduziu “[…] à certeza de um Deus Criador bom e poderoso, fonte de toda realidade” (AGOSTINHO, Santo, 1995, p. 16). Em 384 começou a ensinar retórica em Milão, onde conheceu santo Ambrósio, bispo da cidade.

“A vida de Santo Agostinho é fascinante porque nos permite surpreender – num espírito privilegiado e numa natureza humana densa e contraditória – os dois processos complementares que caracterizam a época do ponto de vista da religião: o processo individual, subjetivo, da conversão, de encontro do novo Deus proposto pela Igreja; e o processo de implicações mais vastas, objetivo, da formulação de um pensamento católico com a amplitude e a coerência de um sistema filosófico” (MADUREIRA, 1973, pp. 9-10). Foi ele que soube melhor unir e estruturar “[…] os valores cristãos emergentes, recebidos do Novo Testamento, e a tradição filosofia herdada da Grécia antiga, especialmente de Platão. Tudo isso faz dele não apenas um grande santo e um grande modelo, pelos caminhos pessoais que percorreu até converter-se, como sem dúvida o pensador mais ilustre dos primeiros tempos do cristianismo”. (MADUREIRA, 1973, p. 10)

O religioso, teólogo cristão e doutor da Igreja sistematizou a doutrina cristã com enfoque neoplatônico. A tese neoplatônica pode satisfazer Agostinho até nos pontos acima, bem como, quanto ao mal físico que poderia ser resolvido por meio da Providência divina. Pois, o mal já não era mais como “um malefício, mas sim uma contribuição ao bem comum e à beleza da ordem” (AGOSTINHO, Santo, 1995, p. 13). O mesmo não pode ser dito quanto ao mal moral, porquanto Plotino propunha respostas inadmissiveis e alegava que a matéria é  “essencialmente má, e a responsável pelo mal” (AGOSTINHO, Santo, 1995, p. 13).

No entanto, Agostinho se deixou guiar pela fé em Deus bom, o Bem supremo que tudo criou pro meio do Filho, o Verbo eterno, e que tudo o que foi criado é bom. “Ele procura explicar pela razão a origem do pecado e seu papel na obra de Deus. Em conclusão, chega a afirmar em síntese: a fonte do mal moral, o pecado, está no abuso da liberdade, mas esta é um bem” (AGOSTINHO, Santo, 1995, p. 14).

Batizado em 387 por santo Ambrósio, junto com o filho Adeodato. Tomado pelo ideal da ascese, decidiu fundar um mosteiro em Tagaste, onde nascera. Nessa época perdeu a mãe e, pouco depois, o filho. Ordenado padre em Hipona (391), pequeno porto do Mediterrâneo, na atual Argélia, em 395 tornou-se bispo-coadjutor de Hipona, passando a titular com a morte do bispo diocesano Valério.

Em sua vida e em sua obra, santo Agostinho testemunha acontecimentos decisivos da história universal, com o fim do Império Romano e da antiguidade clássica. Suas obras mais importantes são De Trinitate, sistematização da teologia e filosofia cristãs, divulgada de 400 a 416 em 15 volumes; De Civitate Dei, divulgada de 413 a 426, em que são discutidas as questões do bem e do mal, da vida espiritual e material, e a teologia da história; Confessiones, autobiografia, divulgada por volta de 400; De Libero Arbitrio onde discute sobre o bem e o mal, e muitos trabalhos de polêmica (contra as heresias de seu tempo), de catequese e de uso didático, além dos sermões e cartas, em que interpreta minuciosamente passagens das Escrituras.

Sua mãe, Mônica – “aquela viúva casta, piedosa e sóbria — como Vós a quereis —, já, certamente, mais alegre pela esperança, mas não menos remissa em prantos e gemidos, não se cansava de Vos fazer queixa de mim, durante as horas em que orava. ‘As suas preces chegaram à vossa presença’” (Confissões. III, 11,20) – atingiu o objetivo pelo qual lutara a vida toda e pode esperar tranquila a morte, que realmente ocorreu alguns meses depois, no outono de 387, na cidade de Óstia.

Agostinho estava desolado por ter perdido a mãe. Mas por outro lado tinha diante de si um futuro de verdadeira alegria e esperança. Voltou a Tagaste, vendeu as propriedades paternas e, congregando em torno de si os amigos mais fiéis, organizou uma espécie de comunidade monástica. Ali pretendia passar o resto da vida em recolhimento, aprofundando a vocação religiosa e fundamentando racionalmente a fé que abraçara.

No pensamento de santo Agostinho, o ponto de partida é a defesa dos dogmas (pontos de fé indiscutíveis) do cristianismo, principalmente na luta contra os pagãos, com as armas intelectuais disponíveis que provêm da filosofia helenístico-romana, em especial dos neoplatônicos como Plotino. Para pregar o novo Evangelho, é indispensável conhecer a fundo as Escrituras, que só podem ser bem interpretadas através da fé, pois apenas esta sabe ver ali a revelação de verdades divinas. Compreender para crer e crer para compreender, tal é a regra a seguir.

A salvação do homem, na teologia agostiniana, é algo completamente imerecida, que depende tão só da graça de Deus; graça que se manifesta aos homens por meio dos sacramentos da Igreja.

Fábio Cardoso da Silva[1]


[1] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 3º ano de Filosofia no IFTSC.

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Autor:

Instituto de formação de sacerdotes e religiosos da Província Eclesiástica de Goiânia.

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