Publicado em Apresentação, IX Semana Acadêmica

3° dia da IX Semana Acadêmica

Na abertura da 3° noite da IX Semana Acadêmica, o acadêmico e seminarista Filipe Cristino, da Diocese de Ipameri, apresentou uma breve comunicação sobre o tema “O Encontro Da Verdade E Da Beatitude Pelo Cultivo Da Interioridade Em Santo Agostinho”.

Confira o resumo da apresentação: “Agostinho foi um pensador que sempre buscou conjugar a sua teoria com a sua própria vida, fazendo da experiência filosófica uma experiência viva da sua própria espiritualidade. Tal aspecto se sobressaiu na temática do conhecimento e da vivência ética voltada para a felicidade, pois ambas as teorias, em Agostinho, são mutuamente dependentes por fazerem parte, em diferentes facetas, de uma só vivência. Para tal, Agostinho recorre a um conceito fundamental para unificar essas duas dimensões filosóficas: a interioridade. Com uma significativa influência do neoplatonismo, Agostinho conjuga a busca da verdade e a vivência ética em um único movimento de interiorização que se destina a um encontro com a Verdade, que é Deus. Este presente trabalho se propõe a explorar esse itinerário agostiniano, iniciando o seu percurso com o problema da felicidade e sua relação com Deus para depois entrar na temática do conhecimento, incorporando sempre tais perspectivas à temática da interioridade.”

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A segunda comunicação da noite foi apresentada por Gustavo Augusto da Silva,  estudante de filosofia do IFITEG, com o tema: “A Moral Agostiniana e o Cuidado com a Natureza.”

Confira o resumo da apresentação: “Santo Agostinho concebe toda a criação como algo que está intrinsecamente ligado ao Homem. Deus se doa totalmente às criaturas no ato da criação. Sem estar ligada a tempo algum, a Eternidade se faz agora compreensível aos seres. O Homem pode pensá-la e refletir sobre ela de acordo com suas acepções de temporalidade, dadas na mente. A moral se encontra nesta temporalidade; ela está como que “organizadora e perpetuadora” dos bens criados por Deus. Guiado pela fé e pela razão o Homem tem o dever mantedor da Ordem. A criação, de modo geral, está dentro dessa Ordem, resguardada por ela. A natureza é parte importantíssima presente na criação que abrange a vida do Homem por completo. Muito mais que apenas fauna e flora, a natureza é algo que transparece o ser de Deus de modo íntegro e verdadeiro. Nessa presente comunicação pretendemos elucidar os importantes conceitos citados acima e fazer uma atualização do que Agostinho nos fala sobre moral e o cuidado com a criação. Nosso objetivo é trazer para nosso século os ensinamentos deste atualíssimo filósofo e teólogo do séc. IV d.C., tomando sempre os devidos cuidados com anacronismos ou fundamentalismos.”

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Em seguida a palavra foi passada para Antônio Matosinho, acadêmico do IFITEG, cuja fala foi sobre “Reflexões acerca do ato responsável em Bakhtin e o cuidado com a ‘casa comum’”.

Eis o resumo da apresentação: “Na encíclica ‘Laudato Si’ são nítidos os esforços de anunciar/denunciar o comportamento mesquinho e irresponsável do homem que tem chagado a criação. Todo o texto é carregado de um urgente convite para renovar o diálogo sobre a questão ambiental, chamando todas as pessoas a assumir responsabilidade no cuidado e desenvolvimento sustentável do planeta. Portanto, procurar-se-á aqui aproximar teoricamente a concepção da unicidade singular na filosofia de Mikhail M. Bakhtin – que é perpassada pela alteridade -, e o compromisso com o outro, como nota-se na encíclica papal. Partindo da obra “Para uma filosofia do ato responsável”, será explanado acerca do cuidado com o planeta, a partir de uma singularidade em ligação com toda a vida, já que,em Bakhtin, o sujeito é sempre um agente posto em relação com o outro, em relação social; não podendo afirmar-se sem um compromisso ético, responsável e responsivo.”

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A última das apresentações coube a Antoniel Braga e Nathan Nunes, acadêmicos do IFITEG, sobre o tema: “O jardim de Epicuro às luzes da Ética”.

Confira o resumo: “Epicuro (341 a.C.), conhecido como o filosofo da alegria, pautou sua filosofia na hedoné, ou seja, numa vida prazerosa e feliz, mas sem voluptuosidade pueril, e na (felicidade). Transmitiu toda a filosofia em um Jardim (κεπος) no qual seus seguidores aprendiam seus ensinamentos e viviam numa vida de comunidade. Tal Jardim estava além da agitação da vida política, associado ao sossego da natureza. Nele, usufruía-se de perfeita paz, com uma paisagem de se admirar. Nele, ainda, o filosofo ensinava as pessoas a viver em paz e a conservar a serenidade da alma em meio a uma vida de dificuldades. Assim Epicuro fundou e reiterou sua ética, tendo como objetivo ensinar seus companheiros a cuidar de si e da vida como se cuida de um belo jardim. Nessa perspectiva, trataremos, neste artigo, de propor uma reflexão acerca da ética epicurista com um olhar voltado para o local em que Epicuro e seus discípulos viviam, o Jardim, analisando o que nos foi proposto pela Campanha da Fraternidade (CF 2017), cujo lema é “Cultivar e guardar a criação” (Gn. 2,15), tema abordado também na Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si.”

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Publicado em Antropologia, Apresentação, Artigos Científicos

EM BUSCA DE SENTIDO: PROCURA POR ESPIRITUALIDADE – UMA SÍNTESE

ImagemMarcas indeléveis na história da humanidade foram deixadas pela modernidade. Depois do promissor e esperançoso século XIX, sucedeu-se o turvo e cético século XX e hoje se fala de pós-modernidade marcada pela fragmentação do sujeito, pautada pelo consumismo, afetada pela insegurança decorrente das verdades abaladas e, portanto, em busca de sentido[1]. É nesse cenário que se situa o homem na esteira de busca e de realização. É também nesse terreno fecundo que as ciências humanas encontram seu objeto de investigação: o próprio homem. O interessante é que há um substrato comum entre as diversas ciências, um mesmo objetivo: buscar sentido, encontrar respostas para aprender a viver e promover a realização humana. Diante disso, é fato: a busca de sentido é uma atitude comum, que todos fazem; porém, ao mesmo tempo, é uma busca individual.

O psiquiatra Viktor Frankl (1905-1997) analisou a situação do homem atual e verificou que não poucos vivem a “crise de sentido” ou “o vazio existencial”. Quando tudo parece estar resolvido, tudo indo bem tecnicamente, uma pergunta brota em seu interior como uma esfinge: “sobreviver? Mas para quê”?[2]. Para este autor, a busca por sentido foi desconsiderada ao longo dos tempos ou, em muitas ocasiões, foi tratada como as patologias. Ele afirma que ela “é uma característica distintiva do ser humano” e não é apenas um desejo, mas uma realidade, uma necessidade específica, irredutível. É um “valor de sobrevivência” que se dá na capacidade de “orientar a própria vida em direção a um ‘para que coisa’ ou ‘para quem[3]’”. É buscando sentido e, por conseguinte, transcendendo-se que se aprende a viver.

São cada vez mais comuns os discursos de que o homem de hoje vive em “crise de sentido”. Nessa conjuntura, a filosofia se apresenta como tentativa de dialogar com as perguntas emergentes dessa situação, promovendo a reflexão. Entre as correntes de pensamento, há algumas que chamam a atenção para a constante e sistemática ‘redução do humano’, suprimido dimensões irredutíveis e não menos reais de sua existência. Um dos pensadores que se destaca nessas correntes é o judeu Martin Buber (1887-1965) que desafia o homem atual a refletir sobre a simplicidade das relações e seu valor ontológico. Ele entende que o homem não vive sem se progredir nas ciências, sem a técnica, mas é convicto de que viver para a ciência ou existir pautado pela técnica não realiza sua humanidade[4]. Para ele, o homem encontra o sentido da existência e sua concretização no relacionar-se com o seu semelhante. Porém, importa saber se na atualidade ainda é possível essa simples e desafiadora tarefa. Trata-se de uma relação ontológica possível se se o homem confronta consigo, se se abre à relação gratuita, presencial, imediata e recíproca[5]. Mas, para o encontro relacional não se fechar entre um Eu e um Tu, reduzindo o outro a um objeto, tal como o raciocínio técnico-científico, Buber propõe uma terceira dimensão, a relação com Deus, para onde convergem todas as relações interpessoais e quem as livra da objetivação. É Ele o sentido, o significado dos significantes atributos simbólicos da relação pessoal inter-humana[6].

Para os dois autores, o “sentido da vida” não está separado do contexto em que se vive. Constata-se que a exigência humana de buscar sentido é uma resposta à sua estrutura capaz de efetivá-lo. É uma busca que se traduz na procura por aspirações elevadas, sair de si, transcender, seguindo uma progressiva autenticidade. Por outro lado, o “sentido” não é criado nem improvisado: é descoberto, é encontrado, reconhecido e livremente assumido, acolhido pelo homem. Portanto, a busca de sentido não coincide com a busca por uma espiritualidade orientadora de sentido, de integração, caracterizada por uma profunda relação com Deus e, por conseguinte, com o outro[7]? Em outras palavras, a crise de sentido não é uma crise espiritual? Importa ainda considerar que se entende por espiritualidade uma experiência que faz o homem transcender-se, sair de si e viver uma profunda relação que o eleva e converte essa experiência mística em vida, em expressões de valores, em aprendizado que o tenciona para além da existência temporal e material.

Mário Correia[8]

**Síntese do Artigo apresentado na Jornada Filosófica e Teológica do IFITEG, no dia 09.05.2012.


[1] Dois autores parecem pertinentes aqui: Stuart Hall com a tese da “crise de identidade” e Zygmund Bauman com a tese da “sociedade do consumo” ou “modernidade líquida”. Os dois propõem repensar as estruturas atuais.

[2] FRANKL, Viktor E. Um sentido para a vida. Psicoterapia e humanismo. Aparecida- SP: Ideias e letras, 2005. p 15.

[3] Ibidem, p. 29.

[4] cf. BUBER, Martin. Eu e Tu. 10ª ed. São Paulo: Centauro, 2006. pp. 53, 74.

[5] Cf. ibidem, pp. 53, 74.

[6] Cf. ibidem, p. 101

[7] cf. BERNARD, Charles André. Introdução à teologia Espiritual. São Paulo: Ed. Loyola, 2005. p. 88.

[8] Seminarista da diocese de Barreiras, graduado em Filosofia e no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Antropologia Filosófica, Apresentação, Filosofia

Boas Vindas!

Toda a civilização ocidental, nossa cultura e nossa forma de pensar tem sua origem no espanto, no amor e na aspiração pela sabedoria. Este espanto se deteve por séculos na questão do ser, pela noção de que havia (ou não havia… ?) um ser superior que englobasse, que envolvesse todos os entes, todos os seres. Esta busca, na Grécia clássica, tornou-se busca pelo saber, pelo “Logos”.

A discussão filosófica já mudou muito o foco, e mudou várias vezes… Contudo, este mesmo Ser e este mesmo Logos continuam a nos encantar. Animais reflexivos que somos, sentimo-nos interpelados diante disso. Presos pela limitação material, pelo imanente, procuramos o que é transcendente, maior que nós mesmos.

Há muitos que sustentam, com bons argumentos, que esta procura é vã. Com eles queremos dialogar, certos de que têm muito a nos enriquecer. Nós, que somos cristãos, cremos que este Ser, este Logos – a Verdade – é uma Pessoa viva, Jesus Cristo. Ele, antes de tudo, nos procura e nos encontra. Assim, podemos ter esperança de que nossa busca não será perdida. É Ele que nos envolve e, mais, que renova e transforma a cada dia nossa vida e nossa mentalidade.

Caros leitores, hoje lançamos definitivamente o Blog do Instituto Santa Cruz, que forma homens e mulheres para a vida consagrada a Deus, uns para o sacerdócio e outros para a vida religiosa ou laical. Somos chamados à doação e à relação com os homens e mulheres de hoje. Por isso, o objetivo desta página é partilhar a admiração, o amor e a busca pelo conhecimento, pela sabedoria, pela verdade, por Deus.

Ainda que não esteja na moda, queremos falar de pensamento e de fé, de filosofia e de teologia. Publicaremos textos de estudantes e de professores, na esperança firme de que assim poderemos contribuir com algo àqueles que nos lerem.

Boa aventura!

Fachada do Instituto Santa Cruz