Publicado em Antropologia, Apresentação, Artigos Científicos

EM BUSCA DE SENTIDO: PROCURA POR ESPIRITUALIDADE – UMA SÍNTESE

ImagemMarcas indeléveis na história da humanidade foram deixadas pela modernidade. Depois do promissor e esperançoso século XIX, sucedeu-se o turvo e cético século XX e hoje se fala de pós-modernidade marcada pela fragmentação do sujeito, pautada pelo consumismo, afetada pela insegurança decorrente das verdades abaladas e, portanto, em busca de sentido[1]. É nesse cenário que se situa o homem na esteira de busca e de realização. É também nesse terreno fecundo que as ciências humanas encontram seu objeto de investigação: o próprio homem. O interessante é que há um substrato comum entre as diversas ciências, um mesmo objetivo: buscar sentido, encontrar respostas para aprender a viver e promover a realização humana. Diante disso, é fato: a busca de sentido é uma atitude comum, que todos fazem; porém, ao mesmo tempo, é uma busca individual.

O psiquiatra Viktor Frankl (1905-1997) analisou a situação do homem atual e verificou que não poucos vivem a “crise de sentido” ou “o vazio existencial”. Quando tudo parece estar resolvido, tudo indo bem tecnicamente, uma pergunta brota em seu interior como uma esfinge: “sobreviver? Mas para quê”?[2]. Para este autor, a busca por sentido foi desconsiderada ao longo dos tempos ou, em muitas ocasiões, foi tratada como as patologias. Ele afirma que ela “é uma característica distintiva do ser humano” e não é apenas um desejo, mas uma realidade, uma necessidade específica, irredutível. É um “valor de sobrevivência” que se dá na capacidade de “orientar a própria vida em direção a um ‘para que coisa’ ou ‘para quem[3]’”. É buscando sentido e, por conseguinte, transcendendo-se que se aprende a viver.

São cada vez mais comuns os discursos de que o homem de hoje vive em “crise de sentido”. Nessa conjuntura, a filosofia se apresenta como tentativa de dialogar com as perguntas emergentes dessa situação, promovendo a reflexão. Entre as correntes de pensamento, há algumas que chamam a atenção para a constante e sistemática ‘redução do humano’, suprimido dimensões irredutíveis e não menos reais de sua existência. Um dos pensadores que se destaca nessas correntes é o judeu Martin Buber (1887-1965) que desafia o homem atual a refletir sobre a simplicidade das relações e seu valor ontológico. Ele entende que o homem não vive sem se progredir nas ciências, sem a técnica, mas é convicto de que viver para a ciência ou existir pautado pela técnica não realiza sua humanidade[4]. Para ele, o homem encontra o sentido da existência e sua concretização no relacionar-se com o seu semelhante. Porém, importa saber se na atualidade ainda é possível essa simples e desafiadora tarefa. Trata-se de uma relação ontológica possível se se o homem confronta consigo, se se abre à relação gratuita, presencial, imediata e recíproca[5]. Mas, para o encontro relacional não se fechar entre um Eu e um Tu, reduzindo o outro a um objeto, tal como o raciocínio técnico-científico, Buber propõe uma terceira dimensão, a relação com Deus, para onde convergem todas as relações interpessoais e quem as livra da objetivação. É Ele o sentido, o significado dos significantes atributos simbólicos da relação pessoal inter-humana[6].

Para os dois autores, o “sentido da vida” não está separado do contexto em que se vive. Constata-se que a exigência humana de buscar sentido é uma resposta à sua estrutura capaz de efetivá-lo. É uma busca que se traduz na procura por aspirações elevadas, sair de si, transcender, seguindo uma progressiva autenticidade. Por outro lado, o “sentido” não é criado nem improvisado: é descoberto, é encontrado, reconhecido e livremente assumido, acolhido pelo homem. Portanto, a busca de sentido não coincide com a busca por uma espiritualidade orientadora de sentido, de integração, caracterizada por uma profunda relação com Deus e, por conseguinte, com o outro[7]? Em outras palavras, a crise de sentido não é uma crise espiritual? Importa ainda considerar que se entende por espiritualidade uma experiência que faz o homem transcender-se, sair de si e viver uma profunda relação que o eleva e converte essa experiência mística em vida, em expressões de valores, em aprendizado que o tenciona para além da existência temporal e material.

Mário Correia[8]

**Síntese do Artigo apresentado na Jornada Filosófica e Teológica do IFITEG, no dia 09.05.2012.


[1] Dois autores parecem pertinentes aqui: Stuart Hall com a tese da “crise de identidade” e Zygmund Bauman com a tese da “sociedade do consumo” ou “modernidade líquida”. Os dois propõem repensar as estruturas atuais.

[2] FRANKL, Viktor E. Um sentido para a vida. Psicoterapia e humanismo. Aparecida- SP: Ideias e letras, 2005. p 15.

[3] Ibidem, p. 29.

[4] cf. BUBER, Martin. Eu e Tu. 10ª ed. São Paulo: Centauro, 2006. pp. 53, 74.

[5] Cf. ibidem, pp. 53, 74.

[6] Cf. ibidem, p. 101

[7] cf. BERNARD, Charles André. Introdução à teologia Espiritual. São Paulo: Ed. Loyola, 2005. p. 88.

[8] Seminarista da diocese de Barreiras, graduado em Filosofia e no 3º ano de Teologia no IFTSC.

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A discussão filosófica já mudou muito o foco, e mudou várias vezes… Contudo, este mesmo Ser e este mesmo Logos continuam a nos encantar. Animais reflexivos que somos, sentimo-nos interpelados diante disso. Presos pela limitação material, pelo imanente, procuramos o que é transcendente, maior que nós mesmos.

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