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PÓS-MODERNIDADE E MEIOS DE COMUNICAÇÃO

 excesso da comunicaçao

O homem é um ser de relacional[1], como diz Martin Buber, com isso, é social, político e comunitário. Desde os primórdios, a comunicação existe no contexto existencial do homem. Com o passar dos anos, percebe-se uma enorme evolução na comunicação.

Na sociedade hodierna, vê-se um fluxo contínuo de informações e notícias. Com o “boom” dos smartphones e das redes sociais, há uma constante troca, tanto de informações, quanto de experiências, imagens entre outras. Criou-se a massificação da informação.

A Pós-Modernidade trouxe, além de tudo isso, um “simular”, faz-se uma jogatina entre o real e o imaginário. Quando o momento se torna enfadonho, surge uma fuga para “outra realidade”, gerando assim uma “amebalização” das relações dialógicas. Perde-se os valores, o homem se torna “ligth”[2].

Através deste cenário contempla-se o niilismo total, ou seja, a falta de sentido. Os sistemas informativos se tornam picadeiros, nele os animais são os homens. Com o atual aparato midiático há um tendencionismo, este procura alienar cada vez mais pessoas. Não se respeita o receptor, com todas as suas particularidades culturais e éticas, o que se valoriza é o emissor.

Diante do período Pós-Moderno, o homem é desafiado a se libertar e a criar uma nova cultura midiática. Utilizando-se da atual estrutura, que é eficaz e globalizante.

Neilton Mendes.

Seminarista da diocese de São Luís dos Montes Belos, 1° ano de filosofia, IFTSC.

 Referências

[1] BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução do alemão, introdução e notas por Newton Aquiles Von Zuben. São Paulo: Centauro, 2001.

[2] BARTH, Wilmar Luiz. “O Homem Pós-Moderno, religião e ética”. In Teocomunicação 155(2007), Porto Alegre, p. 86.

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O homem na visão da antropologica teológica

De acorimages (12)do com o Papa João Paulo II, “o homem é a primeira e fundamental via da Igreja, via traçada pelo próprio Cristo e via que imutavelmente conduz através do mistério da encarnação e da redenção”[1]. Ao falar do homem nessa perspectiva, queremos abordá-lo na sua relação com o Deus Uno e Trino revelado em Jesus Cristo. Pois o homem só sabe o que ele é por meio da luz de Jesus Cristo, o revelador de Deus. Mas, porque afirmamos que o homem só conhece a si se for iluminado por Cristo? O Concílio Vaticano II diz que “o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre sua altíssima vocação”[2]. Ao se revelar, Cristo tinha um grande destinatário: o homem, ele é o objeto dessa revelação. A verdade revelada é verdade de salvação e é por isso que nos diz quem é o homem, fazendo-nos conhecer sua vocação.

A relação do homem com Deus é a dimensão última e mais profunda de seu ser, a única que nos dá a medida exata do que somos, ou seja, somos a “única criatura da terra que Deus quis por si mesma”[3]; no mais profundo de seu ser para ser chamado à comunhão de vida com Ele. Conforme Ladaria [4], essa relação com Deus, sempre é mediada por Cristo que se revela a nós e que também nos possibilita conhecermos a nós mesmos. Segundo o autor, para ter uma visão completa do homem no que diz respeito o ponto de vista da fé cristã é preciso distinguir os aspectos fundamentais de nossa referência a Deus. Para tanto, ele elenca três[5]: a criação, o pecado e a graça.

A dimensão mais específica da antropologia teológica é a relação de amor e de paternidade que Deus quer estabelecer com todos os homens através de seu filho Jesus Cristo. Deus cria o homem e dá a ele a graça de ser chamado à filiação divina por meio do Espírito, condição essa que só era de Jesus, e que agora é aberta a todos os homens, nisso consiste a vocação definitiva de cada homem.

O chamado à graça pressupõe nossa existência como criaturas livres. Porém a razão de nossa existência não está em nós. Se existimos é porque Deus quis, foi por sua bondade, em sua liberdade nos criou para chamar-nos à comunhão com Ele. É necessário termos compreensão dessa realidade para que possamos atingir o nosso fim. Mas porque se faz necessário falar da criação se a mesma parece ser tão óbvia na teologia? Ao falarmos da criação do homem, queremos enfocar a nova criação realizada em Cristo. O homem foi criado a imagem e semelhança de Deus por meio de Cristo e o mesmo caminha para Ele. A questão da criação é um fator determinante e fundante no que diz respeito ao homem, esse fator determina sua própria consistência enquanto ser que foi criado para comunhão pessoal com Deus.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, “na criação do mundo e dos homens, Deus colocou o primeiro e universal testemunho de seu amor todo poderoso e de sua sabedoria, o primeiro anúncio de seu desígnio benevolente, o qual encontra sua meta na nova criação em Cristo”[6]. Só Deus tem esse poder para criar do nada “ex nihilo”, nenhuma de suas criaturas tem esse poder infinito para criar, para chamar à existência aquilo que ainda não existe. Mas, qual seria o objetivo de Deus ao criar o mundo e especialmente o homem? A Igreja nos ensina que Deus criou todo o mundo livremente para manifestar e comunicar a sua glória, ao participar de sua verdade, bondade e beleza a criação desfruta da glória para qual foi criada. Glória essa que é sinal de doação, aqui se encontra o ponto alto no que diz respeito ao homem, porque é nessa manifestação e autodoação que estão exatamente a sua salvação e sua plenitude. Deus criou e continua mantendo o universo por meio de seu Filho e do Espírito Santo que dá vida; o seu poder está em “manifestar-se em Cristo, para poder comunicar seus benefícios e comunicar-se a si mesmo, e com isso obter a plenitude da criatura. Essa plenitude é Deus mesmo, porque apenas em Deus o mundo e, sobretudo o homem alcançam seu fim último”[7].

“Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, a imagem de Deus o criou”[8].  Esse versículo do Gênesis nos leva a refletir que o homem ocupa um lugar de destaque na criação, pois é “imagem de Deus”, unindo em sua natureza o mundo espiritual e material (corpore et anima unus). Além disso, foi constituído em uma profunda amizade com seu Criador, em harmonia consigo mesmo e com a criação, realidade tão grandiosa que só foi superada pela glória da nova criação em Cristo Jesus.

O Concílio Vaticano II afirma que de acordo com a “Sagrada Escritura o homem foi criado a imagem de Deus, pois só ele é capaz de conhecer e amar seu Criador, que o constituiu senhor de todas as coisas terrenas, para que as usasse, glorificando a Deus”[9]. Essa colocação do Concílio nos trás a resposta da grande indagação do salmista sobre a grandeza humana em sua fragilidade, mistério e paradoxo. “Que é o homem para dele vos lembrardes com tanto carinho?”[10]. O homem não tem outro fim a não ser compartilhar por meio do conhecimento e pelo amor a vida de Deus. Por isso ele é “imagem de Deus”, ser livre, dotado de dignidade, indivíduo humano, “capaz de conhecer-se, possuir-se e doar-se livremente para viver na comunhão com as outras pessoas e com seu Criador”[11], nisso consiste sua realização pessoal e felicidade.

Esse homem criado a imagem e semelhança de Deus chamado à comunhão optou por viver sob o signo do pecado, da infidelidade a Deus, a si e aos outros; o mal uso de sua liberdade resultou nisso. De acordo com Ladaria, o amor de Deus que nos criou e quer fazer de nós seus filhos não encontrou no homem uma resposta de acolhida, mas desde o princípio encontrou indiferença e até rejeição.

O Catecismo da Igreja Católica confirma essa premissa afirmando:

Deus criou o homem à sua imagem e o constituiu em sua amizade. Criatura espiritual, o homem só pode viver esta amizade como livre submissão a Deus. E o que exprime a proibição, feita ao homem, de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, “pois, no dia em que dela comeres, terás de morrer” (Gn 2,17). “A árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2,l7) evoca simbolicamente o limite intransponível que o homem, como criatura, deve livremente reconhecer e respeitar com confiança. O homem depende do Criador, está  submetido às leis da criação e às normas morais que regem o uso da liberdade.[12]

Nessa perspectiva do pecado devemos trazer a tona um elemento antropológico de fundamental importância: a liberdade. Sabemos que o grande distintivo de Deus no homem é a liberdade, isto é, sua semelhança. O Decreto Conciliar Gaudium et Spes afirma que “a liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis deixar o homem entregue à sua própria decisão, para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele”[13]. Porque se faz necessário falar da liberdade  em relação ao pecado? Porque o pecado consiste no mau uso da liberdade que resultou no rompimento da relação harmônica que o homem tinha com seu Criador, criatura e criação. Sabemos que Deus criou o homem em estado de santidade e justiça, mas seduzido pela “serpente”, que o enganou apresentando o “fruto” como bom e belo, dando a oportunidade de “ser como Deus”, o homem abusa de sua liberdade se levanta contra Deus com o desejo de atingir seu fim fora Dele. O homem preferiu a si mesmo, renunciou a Deus, contrariou seu estado de criatura e de seu próprio bem. Esse ato resultou no que chamamos de pecado original, pecado esse que feriu fortemente a relação e “diminuiu o próprio homem impedindo-o de conseguir a plenitude”[14].

O casal protótipo desse drama é Adão e Eva, agora poderíamos questionar como o pecado desse casal pode chegar até nós nos dias de hoje? Quando a Sagrada Escritura usa essa linguagem figurada apresentando Adão e Eva, ela está querendo representar por meio deles a unidade do gênero humano e não somente duas pessoas individuais. A Revelação nos ensina que Adão havia recebido a graça da santidade e justiça que deveria perpassar toda a humanidade, porém o mesmo renunciou a esse estado e optou pelo pecado, como aqui se fala da unidade do gênero humano todos receberam esse “presente de grego”[15]. A transmissão desse pecado é um mistério que não conseguimos compreender plenamente. Mas um elemento nos ajuda entendê-lo parcialmente. O ser humano é um ser de relação, logo o pecado pessoal que afetou a natureza humana foi transmitido a todos em um estado decaído, como afirma o Concílio de Trento. Para isso o Catecismo explica: “é um pecado que  será  transmitido por propagação à humanidade inteira, isto é, pela transmissão de uma natureza humana privada da santidade e da justiça originais. E é por isso que o pecado original é denominado pecado de maneira analógica: é um pecado contraído e não cometido, um estado e não um ato”[16].

Mas, diante dessa realidade opaca do pecado continuamos percebendo a ação de Deus, que ama sua criatura e que não a abandona a mercê do inimigo. João Paulo II diz que na economia da salvação “o pecado não é o protagonista nem, menos ainda, o vencedor”[17]: só somos capazes de entendê-lo pela luz da plena Revelação que acontece em Cristo Jesus. De acordo com o papa, o próprio Cristo é o mistério da piedade que venceu o mistério da iniquidade; por meio de sua Páscoa nos livrou da culpa que nos oprimia, nos dando novamente a condição de vivermos a filiação divina. Esse mistério “é o caminho aberto pela misericórdia divina à vida reconciliada”[18]. A misericórdia de Deus Pai é abundante e foi derramada sobre nós com profusão; “é um amor mais poderoso que o pecado, mais forte do que a morte”[19].

São Paulo nos ensina que “pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores. Assim pela obediência de um só (Cristo) todos se tornarão justos”[20]. A vitória que Cristo nos concedeu sobre o pecado foi muito grande, ela nos deu bens muito maiores do que aquilo que o pecado tinha nos tirado, pois “onde abundou o pecado, a graça superabundou”[21]. E é por isso que na noite de Páscoa podemos cantar “verdadeiramente era necessário o pecado de Adão, que foi destruído com a morte de Cristo. Feliz culpa, que mereceu um tão grande redentor!”

De acordo com São Paulo a graça pode significar o próprio Cristo, então estar na graça é estar em Cristo. Isso evidencia a gratuidade do amor divino que torna possível a verdadeira liberdade. Diante dessa realidade da graça o homem pode ser tornar forte em sua fraqueza. Jesus nos dá essa graça e nos redime do nosso pecado, nos incorporando a Si. Portanto, a grande graça está no evento salvífico de Cristo e na nossa livre adesão a ela, essa graça não é destinada somente para alguns, mas para todos, afirma Ladaria.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, através da fé e do batismo nós nos unimos a Paixão e Ressurreição de Cristo e com isso o Espírito nos concede participar de sua vida, portanto, a graça do Espírito nos dá a justiça de Deus que foi perdida pelo pecado. Essa justificação se dá por meio da conversão do homem que se volta para seu Criador novamente, afastando-se do seu pecado; com isso ele acolhe o perdão e a justiça que vem de Deus. Então, podemos perguntar em que consiste a justificação? A Igreja nos ensina que a justificação que acontece pela graça consiste na remissão dos pecados, na santificação e renovação do homem interior. Pelo batismo partipamos da Paixão-Ressurreição de Cristo, assim somos justificados para que voltemos aquele princípio no qual fomos criados: a glória de Deus, de Cristo e o dom da vida eterna. Essa graça só pode ser concedida por um Deus que é totalmente misericordioso. Por isso, a graça consiste no auxílio oferecido por Deus ao homem para responder a sua vocação de ser filho no Filho, introduzindo-o no mistério da intimidade Trinitária.  Essa iniciativa divina da graça, precede, prepara e suscita a livre decisão do homem, ele deve responder livremente a esse chamado de amor, pois a graça responde diretamente às suas profundas aspirações de liberdade humana, chamando-o à cooperação e à perfeição.

O homem que possui a semente da eternidade em si, portanto, é convocado a transcender seu limite e voltar aquele estado original de perfeita harmonia. A graça santificante que o homem recebe não é por mérito próprio, mas dom gratuito, onde Deus infunde sua vida nele por meio do Espírito Santo para curá-lo do pecado e santificá-lo. O único mérito do homem é seguir seu livre desígnio de associar-se à obra da graça. “O mérito pertence à graça de Deus em primeiro lugar, à cola­boração do homem em segundo lugar. Cabe a Deus o mérito humano”[22]. A fonte principal do mérito diante de Deus é a caridade, e o grande apelo para que o homem atinja a plenitude da vida cristã é a perfeição dessa caridade, pois como nos diz o catecismo “A perfeição cristã só tem um limite: ser ilimitada”[23].

Maximiliano Gonçalves da Costa[1]


[1] – Graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Graduado em Filosofia pelo Instituto Santa Cruz e Graduando em Teologia pelo Instituto Santa Cruz.

REFERÊNCIAS


[1] – JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Redemptor Hominis, n. 14. 1979.

[2] – CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Const. Past. Sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, n. 22.

[3] – CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Const. Past. Sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, n. 24.

[4]– LADARIA, Luis F. Introdução à Antropologia Teológica. Ed. Loyola. São Paulo, 1998.

[5] – Esses aspectos são divididos por metodologia, porque ambos estão unidos na pessoa que é una.

[6] – CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA n.315.

[7] – LADARIA, Luis F. Introdução à Antropologia Teológica. Ed. Loyola. São Paulo, 1998. p. 43-44.

[8] – Gn. 1,27.

[9]– CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Const. Past. Sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, n.12.

[10] – Sl. 8,5.

[11] – CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA n.357.

[12] – CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA n.396.

[13] – CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Const. Past. Sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, n.17.

[14] – CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Const. Past. Sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo Gaudium et Spes, n.13.

[15] – Burla, surpresa ruim inesperada, cilada.  A expressão, que significa dádiva ou oferta que traz prejuízo ou aborrecimento a quem a recebe. A expressão adveio da narrativa do cavalo de Tróia, na obra Eneida, de Vergílio.

[16] – CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA n.404.

[17] – JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós Sinodal Reconciliatio et Paenitentia. 1984. n.19.

[18] – JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós Sinodal Reconciliatio et Paenitentia. 1984. n.22.

[19] – JOÃO PAULO II. Encíclica Dives in Misericordia. 1980. n.8.

[20] – Rm. 5,19.

[21] – Rm. 5,20.

[22] – CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA n.2025.

[23] – CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA n.2028.

 

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EM BUSCA DE SENTIDO: PROCURA POR ESPIRITUALIDADE – UMA SÍNTESE

ImagemMarcas indeléveis na história da humanidade foram deixadas pela modernidade. Depois do promissor e esperançoso século XIX, sucedeu-se o turvo e cético século XX e hoje se fala de pós-modernidade marcada pela fragmentação do sujeito, pautada pelo consumismo, afetada pela insegurança decorrente das verdades abaladas e, portanto, em busca de sentido[1]. É nesse cenário que se situa o homem na esteira de busca e de realização. É também nesse terreno fecundo que as ciências humanas encontram seu objeto de investigação: o próprio homem. O interessante é que há um substrato comum entre as diversas ciências, um mesmo objetivo: buscar sentido, encontrar respostas para aprender a viver e promover a realização humana. Diante disso, é fato: a busca de sentido é uma atitude comum, que todos fazem; porém, ao mesmo tempo, é uma busca individual.

O psiquiatra Viktor Frankl (1905-1997) analisou a situação do homem atual e verificou que não poucos vivem a “crise de sentido” ou “o vazio existencial”. Quando tudo parece estar resolvido, tudo indo bem tecnicamente, uma pergunta brota em seu interior como uma esfinge: “sobreviver? Mas para quê”?[2]. Para este autor, a busca por sentido foi desconsiderada ao longo dos tempos ou, em muitas ocasiões, foi tratada como as patologias. Ele afirma que ela “é uma característica distintiva do ser humano” e não é apenas um desejo, mas uma realidade, uma necessidade específica, irredutível. É um “valor de sobrevivência” que se dá na capacidade de “orientar a própria vida em direção a um ‘para que coisa’ ou ‘para quem[3]’”. É buscando sentido e, por conseguinte, transcendendo-se que se aprende a viver.

São cada vez mais comuns os discursos de que o homem de hoje vive em “crise de sentido”. Nessa conjuntura, a filosofia se apresenta como tentativa de dialogar com as perguntas emergentes dessa situação, promovendo a reflexão. Entre as correntes de pensamento, há algumas que chamam a atenção para a constante e sistemática ‘redução do humano’, suprimido dimensões irredutíveis e não menos reais de sua existência. Um dos pensadores que se destaca nessas correntes é o judeu Martin Buber (1887-1965) que desafia o homem atual a refletir sobre a simplicidade das relações e seu valor ontológico. Ele entende que o homem não vive sem se progredir nas ciências, sem a técnica, mas é convicto de que viver para a ciência ou existir pautado pela técnica não realiza sua humanidade[4]. Para ele, o homem encontra o sentido da existência e sua concretização no relacionar-se com o seu semelhante. Porém, importa saber se na atualidade ainda é possível essa simples e desafiadora tarefa. Trata-se de uma relação ontológica possível se se o homem confronta consigo, se se abre à relação gratuita, presencial, imediata e recíproca[5]. Mas, para o encontro relacional não se fechar entre um Eu e um Tu, reduzindo o outro a um objeto, tal como o raciocínio técnico-científico, Buber propõe uma terceira dimensão, a relação com Deus, para onde convergem todas as relações interpessoais e quem as livra da objetivação. É Ele o sentido, o significado dos significantes atributos simbólicos da relação pessoal inter-humana[6].

Para os dois autores, o “sentido da vida” não está separado do contexto em que se vive. Constata-se que a exigência humana de buscar sentido é uma resposta à sua estrutura capaz de efetivá-lo. É uma busca que se traduz na procura por aspirações elevadas, sair de si, transcender, seguindo uma progressiva autenticidade. Por outro lado, o “sentido” não é criado nem improvisado: é descoberto, é encontrado, reconhecido e livremente assumido, acolhido pelo homem. Portanto, a busca de sentido não coincide com a busca por uma espiritualidade orientadora de sentido, de integração, caracterizada por uma profunda relação com Deus e, por conseguinte, com o outro[7]? Em outras palavras, a crise de sentido não é uma crise espiritual? Importa ainda considerar que se entende por espiritualidade uma experiência que faz o homem transcender-se, sair de si e viver uma profunda relação que o eleva e converte essa experiência mística em vida, em expressões de valores, em aprendizado que o tenciona para além da existência temporal e material.

Mário Correia[8]

**Síntese do Artigo apresentado na Jornada Filosófica e Teológica do IFITEG, no dia 09.05.2012.


[1] Dois autores parecem pertinentes aqui: Stuart Hall com a tese da “crise de identidade” e Zygmund Bauman com a tese da “sociedade do consumo” ou “modernidade líquida”. Os dois propõem repensar as estruturas atuais.

[2] FRANKL, Viktor E. Um sentido para a vida. Psicoterapia e humanismo. Aparecida- SP: Ideias e letras, 2005. p 15.

[3] Ibidem, p. 29.

[4] cf. BUBER, Martin. Eu e Tu. 10ª ed. São Paulo: Centauro, 2006. pp. 53, 74.

[5] Cf. ibidem, pp. 53, 74.

[6] Cf. ibidem, p. 101

[7] cf. BERNARD, Charles André. Introdução à teologia Espiritual. São Paulo: Ed. Loyola, 2005. p. 88.

[8] Seminarista da diocese de Barreiras, graduado em Filosofia e no 3º ano de Teologia no IFTSC.

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Religião Católica e ciência: união versus rivalidade

"A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade" (João Paulo II)

Trata-se de um estudo sobre as relações entre a Fé e a Razão. O objetivo principal é demonstrar que a Religião Católica e a Ciência estão relacionadas e que ambas falam a mesma linguagem, porém com focos diferentes.

Por muito tempo, a Religião e a Ciência se encontraram em constantes conflitos. Hoje se sabe que constitui um grande e doloroso mal entendido essa visão de incompatibilidade entre a Fé e a Razão e que ambas são como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para contemplar a verdade.

O método consistiu em uma revisão bibliográfica que teve por base livros de antropologia teológica, documentos da Igreja Católica e o livro “A Origem das Espécies” de Charles Darwin.

Concluiu-se que tanto a Fé como a Razão precisam uma da outra para continuar seu progresso rumo ao conhecimento da verdade e maior felicidade do próprio homem.[1]

Leia a íntegra do artigo:Religião e ciência: união versus rivalidade

Cláudio José de Carvalho[1]


[1] Seminarista da Diocese de Itumbiara, no 1º ano de Filosofia do IFTSC.


[1] Resumo do artigo científico de mesmo nome apresentado na III Semana Acadêmica do Instituto Santa Cruz, em 15 de setembro de 2011.

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O cristão se encontra no limiar da despedida

Heráclito propõe explicar o mundo por meio do devir, provindo de uma natureza comum a todas as coisas que se encontra em eterno movimento, como podemos observar no seguinte fragmento: “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.” (HERÁCLITO, Alegorias, 24).

Ao lermos o evangelho de Marcos (Mc 8, 27-35), e observarmos duas ações, a primeira, de Pedro ao repreender Jesus, logo após ouvir que seu mestre deveria sofrer e ser morto antes de ressuscitar; e, a segunda, a repreensão de Jesus a Pedro, por notar que a compreensão de seu discípulo se voltava às coisas humanas e não às Divinas, podemos abstrair a reflexão de que o homem é um ser de relações, e que este é um ponto que nos coloca no limiar da despedida.

Há nesse sentido uma analogia entre o devir e a despedida, o devir humano é um constante conjunto de despedidas, por exemplo, a do envelhecimento, do alimentar-se, dos amigos que se partem, das aulas que terminam, das canções ouvidas, do livro que se leu, da viagem que se fez, das estações que passaram, do dia que se foi, de tantas outras despedidas,  as quais culminam em uma despedida maior: a experiência da morte.

A certeza que temos é que passaremos pela experiência da despedida. O senso humano é inconformado com essa realidade da despedida, como é percebido na atitude de Pedro, que não concebia a perda de Jesus

A caminhada, por exemplo, é uma despedida daquilo que se deixa para trás a fim de um encontro ou um reencontro. Nesse sentido, o cristão, que também se encontra no limiar da despedida, se prepara esperando o encontro inesperado com Deus, com aquele que nunca se despede.[1]

Plavras-chave: despedida, devir, limiar.

Leia a íntegra do artigo: O cristão se encontra no limiar da despedida

Arpuim Aguiar de Araujo[2]


[1] Resumo do artigo científico de mesmo nome apresentado na I Semana Acadêmica do Instituto Santa Cruz, em 28 de outubro de 2009.

[2] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 3º ano de Filosofia do IFTSC.

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