Publicado em Autores Renomados, Educação, Filosofia

CONSIDERAÇÕES SOBRE A “ALEGORIA DA CAVERNA” DE PLATÃO

No Livro VII (Alegoria da Caverna) de A República, Platão realiza um “raciocínio por analogia” para falar da educação ou da sua falta[1]. Portanto, a “Alegoria da caverna” tematiza o estado de nossa alma com relação à educação ou a ausência desta. Ou, segundo Werner Jaeger, uma alegoria da natureza humana e da sua atitude perante a cultura e a incultura, isto é, da paideia (formação/educação) e da apaideusia (ausência de educação).[2]

Paideia significa meta suprema, isto é, a busca do conhecimento da ideia do Bem, medida de todas as medidas. A Paideia não é focada aqui do ponto de vista do absoluto, mas antes do ponto de vista do Homem: como transformação e purificação da alma, para poder contemplar o Ser supremo (princípio universal do Bem).

A educação é aqui um tema essencial. Através dela mostra-se o processo mediante o qual a visão pode realizar a ascensão da alma à região da luz e da verdadeira realidade. A reforma da Cidade pressupõe uma reforma da educação, em particular dos futuros filósofos que assumirão a direção da Cidade.

Educação=paideia=transformação da alma; obra de libertação do conhecimento, ou seja, consiste em libertar a alma da prisão e da obscuridade da opinião comum.

O objetivo de Platão é mostrar a diferença entre o mundo sensível (das sombras) e o mundo inteligível (das ideias). Através da teoria das ideias ele mostra as duas principais formas de conhecimento:

a) mundo sensível, que é a realidade das coisas empíricas, dos fenômenos, que é acessível aos sentidos. É o mundo da multiplicidade, do movimento, ilusório, pura sombra do verdadeiro mundo.

b) mundo inteligível é o mundo das ideias (eidos, em grego). É o mundo das essências imutáveis, que o homem não pode atingi-lo completamente nem explicá-lo de forma absoluta, mas o atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos.

Acima de todas essas ideias gerais, está a Ideia do Bem, a mais alta em perfeição e a mais geral de todas. Os seres (ou seja, as coisas) existem na medida em que participam do Bem. O Bem supremo é também a suprema beleza. É Deus para Platão.

Roberto Machado[3] diz que, em uma primeira determinação, o platonismo consiste em distinguir essência e aparência, inteligível e sensível, original e cópia, ideia e imagem. Essa “dualidade manifesta” marcou a história da filosofia. Segundo Nietzsche, toda a filosofia a partir de Platão se desenvolve nos quadros de uma oposição entre aparência sensível e essência inteligível. Pois, para Platão, não pode haver verdadeiro conhecimento do sensível. O que corresponde ao domínio do sensível é apenas opinião – conjectura e crença – e não saber, conhecimento, ciência. Só do inteligível, das essências, das ideias, é possível haver verdadeiro conhecimento.

Passos do processo mostrado na alegoria:

a) Homens situados na caverna. Tomam as sombras por realidade: é a ilusão obstinada do “senso comum” que considera como única realidade a que se ouve, vê ou se conhece por meio dos sentidos e julga absolutamente impossível que possa existir uma outra.

b) Passagem da ausência de conhecimento verdadeiro para o conhecimento verdadeiro.

Ausência de conhecimento: visão parcial, visão limitada, ignorância, obscuridade, violência.

Condições de emitir uma “opinião correta”, “verdadeira”, (doxa).

c) Diálogo, dialética e reminiscência.

Há um conhecimento das Ideias que surge a partir de uma relação imediata da alma com as mesmas (anámnesis). Tal conhecimento, resultante de um esforço da alma, indica-nos que o “diálogo” e as “percepções” (aísthesis) suscitam o conhecimento das Ideias, não o produz. Em ambos, tal “suscitar” surge a partir da “contradição”.

d) Mundo das Ideias: o que permanece das coisas = formas reais = conhecimento verdadeiro = contemplação = ciência, (epistéme).

e) O filósofo (sábio) deve voltar à caverna.

Há uma dialética ascendente e uma descendente.

Ascendente: vai das hipóteses às formas reais; eleva-se cada vez mais alto até o princípio máximo de inteligibilidade.

Descendente: ao se aproximar do princípio não hipotético do Bem, a filosofia pode voltar e iluminar o que está abaixo, levar a clareza aos outros níveis

Enfim, o que caracteriza a démarche de Platão é a busca de um conhecimento inteligível (princípio de inteligibilidade), que é o que se pensa melhor e o que torna possível conhecer o mundo das aparências, por conseguinte, o sensível. Propõe-se uma ascenção para o Bem e retorno ao mundo das imagens.

Antônio José Resende[4]


[1]  PLATÃO. A República: Livro VII. Apresentação e comentários de Bernard Piettre. Brasília: UnB; São Paulo: Ática, 1989., 524d e 514a

[2] JAEGER, Werner W. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

[3] MACHADO, Roberto. Deleuze e a Filosofia. Rio de Janeiro: Graal, 1990, p.25.

[4] Professor no IFTSC e na PUC-Goiás

REFERÊNCIAS

PLATÃO. A República: Livro VII. Apresentação e comentários de Bernard Piettre. Brasília: UnB; São Paulo: Ática, 1989.
SARDI, Sérgio A. Diálogo e Dialética em Platão. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.
JAEGER, Werner W. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1986.
MACEDO, Leosino B. “O Mito da Caverna. Segundo a Ordem das Razões – e da Sensibilidade”. Educ. e Filos., Uberlândia, 1(2): 29-48, jan./jun. 1987.


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O Educador numa perspectiva pessoal

O professor, o educador, o mestre, antes de serem tudo isso, são pessoas únicas, individualidades jamais repetidas. São indivíduos que não podem ser definidos ou rotulados, justamente por serem pessoas. Defini-los seria determinar sua delimitação, reduzi-los a algum esquema simbólico que os tornaria pequenos.

O homem se dimensiona na vida, com sua natureza, com sua razão, com suas paixões e sentimentos, com seus valores, com seus direitos e deveres, com sua liberdade e visão de vida e de mundo, seus anseios e angústias, com sua fé e esperança. Enfim, o ser pessoal ultrapassa todos os limites, e, ao explicá-lo, tornamo-lo cada vez mais confuso em sua grandeza de ser e viver. Sem defini-lo, percebemos e sentimos que possui a feliz angústia de querer viver a vida. Esse sentir não é explicado: é vivido.

A pessoa do educador se percebe como alguém diferente, mas não desigual aos outros. Percebe e sente o seu “eu pessoal,” seu ser. Ele é ele e ninguém mais. A sua personalidade é sua marca indelével, portanto, inexplicável, dispensando qualquer tentativa de definições ou conceituações que não passam de vagas deduções.

O educador, que educa para a vida, necessita viver a sua. A sua vida é sua verdade radical. É o seu todo existencial. Poderá haver algo mais sagrado para ele do que sua vida? Haverá normas, diretrizes, leis pedagógicas ou didáticas, por mais sacrossantas e beatificadas que sejam, mais importantes que o seu existir?

O educador é uma vida e não um esqueleto revestido de carne que anda sonâmbulo, pela rua, a caminhar um percurso desconhecido. O educador que não vive sua vida e que não educa para a vida não pode entrar na sala de aula para falar sobre o viver, pois nada sabe sobre ele. Sem vida, é um defunto que esqueceram de levar para a cidade da morte, para onde sozinho não pode ir.

Mas o verdadeiro educador o é porque sua personalidade é exclusivamente vida. Sendo pessoa, se manifesta como uma presença sagrada e plena de vida. É fonte de vida e não buraco de defunto.

Enfim, o verdadeiro educador é um revolucionário, que luta com as armas da sabedoria, da responsabilidade, da liberdade e do comprometimento de pessoa para com a pessoa humana. O educador é a pessoa lúcida e livre que combate duramente e resiste até mesmo a derrotas e fracassos, porque sua preocupação é ser fiel à humanidade da pessoa.

                                        Washington Uberaba[1]


[1] Seminarista da Diocese de São Luis de Montes Belos, no 2º ano de Teologia no IFTSC.