Publicado em Filosofia, Opinião

Filosofia e mistério?

Quando se aprende a filosofar em meio as constantes “suspeitas” da pós-modernidade todas aquelas pretensões de abarcar “o tudo do todo” com uma Razão Pura já não são mais aceitáveis e nem suficientes. Por isso acaba sendo necessário e urgente se agarrar em algo que ofereça segurança e posteridade nos caminhos do conhecimento e consciência de si, ainda que venha a ser a depressão. Nessas circunstâncias aparece o avançado cientificismo empírico-tecnológico propondo verificações concretas e infalíveis em total oposição a qualquer tipo de crença abstrata, ou o silêncio do mistério. Ora assim como para a razão que pergunta, existem milhares questionamentos internos e externos que a Ciência não consegue e nunca conseguirá responder. Aquilo era tido como um problema que estava diante do sujeito toma a proporção de um “metaproblema”, isto é, totalmente além das capacidades humanas.

A figura do “ser” humano e seu inegável e primordial sentido de vida (existência) no meio de tudo isso se torna simplesmente poeira viajando pelo vazio (espaço), pois não tem respostas cientifico-evolutivas nem a religião parece oferecer algo racionalmente “lógico-concreto”. Por ensejo disso, nasce na França em meio ao existencialismo ateu com Gabriel Marcel (1889-1973), contemporâneo a “Ser e Tempo”, um modo Cristão de compreender a ideia de Mistério. Para Marcel, em especial nos livros Diário Metafísico e Mistério do Ser, a fé (crer) e a ciência (verificar) não são antinômicas (contraditórias), mas capacidades assimétricas, ou seja, convergentes. Porém há objetos metaproblemáticos que não são “verificáveis” mesmo pela fé, estão além de todas as razões e relações. Transcendendo-se deste modo, todas as interrogações humanas de um mero problema lógico assumem a gama de um Mistério inalcançável. Deus aqui se apresenta como o “Mistério Absolutamente Outro”, o que torna a fé seus sujeitos e instrumentos superiores aos da ciência.

Assim a doutrina do Mistério Ontológico de Gabriel propõe diante dos metaproblemas existenciais que a vida é muito mais do que simplesmente o homem compreender o Mistério é antes de tudo entender que o Mistério quem compreende o homem. A sua “apreensão” não cabe dentro do homem é antes ele quem está empreendido (envolto) pelo Mistério. Deste modo sua existência torna-se verdadeiramente autêntica “participando” do Mistério (contemplação socrática como princípio) e não arrogando-se o poder de esgotá-lo. Diante do Mistério o homem apenas se espanta e se cala.

“O reconhecimento do mistério é ao contrário, um ato essencialmente positivo, o ato positivo por excelência em função da qual toda positividade pode ser defendida. G. Marcel – Jornal Metafísico” Uma vez aceitando este Ser Imensurável e inserido neste Dom Inapreensível pode-se fazer uma análise dos modos como fazer participação Nele, porém nunca dominá-los. Em fim para ele no meio deste “mundo em frangalhos” o modo mais autêntico de ontologicamente participar deste Ser Misterioso é através das experiências e valores cristãos. Para o filósofo cristão Deus não se demonstra, invoca-se.

Welliton Elias[1]


[1] Seminarista da Diocese de São Luis de Montes Belos, no 2º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Educação, Opinião

O Educador numa perspectiva pessoal

O professor, o educador, o mestre, antes de serem tudo isso, são pessoas únicas, individualidades jamais repetidas. São indivíduos que não podem ser definidos ou rotulados, justamente por serem pessoas. Defini-los seria determinar sua delimitação, reduzi-los a algum esquema simbólico que os tornaria pequenos.

O homem se dimensiona na vida, com sua natureza, com sua razão, com suas paixões e sentimentos, com seus valores, com seus direitos e deveres, com sua liberdade e visão de vida e de mundo, seus anseios e angústias, com sua fé e esperança. Enfim, o ser pessoal ultrapassa todos os limites, e, ao explicá-lo, tornamo-lo cada vez mais confuso em sua grandeza de ser e viver. Sem defini-lo, percebemos e sentimos que possui a feliz angústia de querer viver a vida. Esse sentir não é explicado: é vivido.

A pessoa do educador se percebe como alguém diferente, mas não desigual aos outros. Percebe e sente o seu “eu pessoal,” seu ser. Ele é ele e ninguém mais. A sua personalidade é sua marca indelével, portanto, inexplicável, dispensando qualquer tentativa de definições ou conceituações que não passam de vagas deduções.

O educador, que educa para a vida, necessita viver a sua. A sua vida é sua verdade radical. É o seu todo existencial. Poderá haver algo mais sagrado para ele do que sua vida? Haverá normas, diretrizes, leis pedagógicas ou didáticas, por mais sacrossantas e beatificadas que sejam, mais importantes que o seu existir?

O educador é uma vida e não um esqueleto revestido de carne que anda sonâmbulo, pela rua, a caminhar um percurso desconhecido. O educador que não vive sua vida e que não educa para a vida não pode entrar na sala de aula para falar sobre o viver, pois nada sabe sobre ele. Sem vida, é um defunto que esqueceram de levar para a cidade da morte, para onde sozinho não pode ir.

Mas o verdadeiro educador o é porque sua personalidade é exclusivamente vida. Sendo pessoa, se manifesta como uma presença sagrada e plena de vida. É fonte de vida e não buraco de defunto.

Enfim, o verdadeiro educador é um revolucionário, que luta com as armas da sabedoria, da responsabilidade, da liberdade e do comprometimento de pessoa para com a pessoa humana. O educador é a pessoa lúcida e livre que combate duramente e resiste até mesmo a derrotas e fracassos, porque sua preocupação é ser fiel à humanidade da pessoa.

                                        Washington Uberaba[1]


[1] Seminarista da Diocese de São Luis de Montes Belos, no 2º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Opinião

O homem verdadeiramente livre edifica o mundo

Na era das permissividades, os homens temos uma errônea ideia do que é lícito e aceitável. A noção do imoral, do desumano e da impudicícia tomou o sentido inverso, de vivência adequada; ao passo que os valaores idôneos têm sido compreendidos, cada vez mais, como dissolução da liberdade humana.

O problema hodierno é, pois, o que a humanidade entende do que seja liberdade. “Seria a liberdade a entrega, total e sem reservas, aos impulsos dos desejos que habitam cada indivíduo?”. Provavelmente, é esta a ideia que a sociedade atual concebe como liberdade. Desse modo, tem-se o ser humano como ser norteado por suas ações impulsivas, desgovernadas, sem orientação.

Porém, conceber, desta maneira, a liberdade pode impedir o homem de exercer um grande dom que é seu: fazer do mundo um mundo melhor. Pois, sendo orientado pela impulsividade, o indivíduo não consegue estabelecer limites entre a sua liberdade própria e a alheia. Assim, a possibilidade de se gerarem conflitos é imensa e, certamente, ocorreria o aniquilamento do homem por si mesmo. Seria, portanto, o fim da complexa, mas magnífica humanidade.

É preciso, pois, compreender aquilo que o apóstolo Paulo, já bem antes deste tempo presente, dizia em seus escritos: ” ‘Tudo me é permitido’, mas nem tudo me convém (…), não me deixarei escravizar por coisa alguma” (I Cor 6,12). Porque a sociedade atual vive uma escravidão, cujo opressor é o próprio ego humano que, lamentavelmente, se fecha em si e exclui tudo o que não seja “eu”. Logo, cada pessoa considera ter o direito de agir como bem acredita, inconsequentemente.

Quão bom seria, entretanto, se cada um doasse um pouco de si em favor da harmonia do conjunto. O ser humano seria, assim, uma gota d’água nesse imenso oceano da diversidade de dons, sem a qual o oceano já não seria tão diverso. Pois cada qual completa essa fascinante e concordiosa obra prima, constituída do homem e de tudo o que existe, fruto da sabedoria divina.

Tudo isso se tornaria realidade, à medida que o homem, verdadeiramente livre, capaz de dar-se regras necessárias, se deixasse ser conduzido como lápis nas mãos de Deus, que por Amor, com Amor e no Amor ajuda cada pessoa e todo o mundo a fazer de sua vida uma bela página da história da existência humana.

Portanto, recuperar não só a noção, mas, sobretudo, a vivência dos idôneos valores conduzirá o homem ao verdadeiro e justo modo de ser livre; através do qual poderá ser capaz de edificar um mundo dotado de necessária harmonia. Pois, de nada adianta a liberdade, distorcidamente entendida, se o ser humano não é capaz de tornar melhor o mundo em que vive.

Adelso J. Guimarães[1]


[1] Seminarista da Diocese de São Luis dos Montes Belos, no 2º ano de Filosofia no IFTSC (www. adelsojguimaraes.blogspot.com)

Publicado em Crítica cinematográfica, Opinião, Teologia

Trindade: convite à comunhão – Parte II

Cena do Filme "Andrei Rublev"
O ator Anatoli Solonystin em cena do Filme "Andrei Rublev"

Voltando à questão da imagem de Deus e do juízo, Cirilo ao travar diálogo com Feafan sobre as obras de Andrei, faz a seguinte observação: “Falta-lhe qualquer coisa, falta-lhe o medo, a fé.” Assinala-se aqui a incompreensão da visão amorosa de Deus que tem Andrei. Em outro momento, o próprio Andrei ao travar uma conversa com Feafan, lhe diz: “Se apenas se apelar para o mal, nunca haverá felicidade perante Deus.” Danila, insistindo com Andrei para que este pinte logo o quadro do juízo final, lhe diz:

“É só pintar. (…) Estamos a perder um tempo ótimo! Quente e seco! Há muito teríamos acabado a cúpula e os pilares. Com cores fortes e expressivas! Com pecadores a arder no inferno… de maneira a provocar arrepios. Imaginei cá um diabo! Assim, a fumegar pelo nariz.”

Andrei o interpela: “O problema não está no fumo (fumaça)! Vai contra mim. Dá-me nojo! Não quero assustar o povo. Compreende-me, Danila!” Crendo que o visível nos faz contemplar o invisível e que ele torna-se uma janela por onde se entrevê o absoluto, Andrei não acredita em uma tal imagem de Deus e do juízo, como as propostas por Danila, e prefere não pintar a ser incoerente consigo mesmo.

No entanto, em um momento de reflexão, Andrei se levanta e diz: “É uma festa”. Esta é a conclusão à qual chega o pintor, esse é o juízo! Anos mais tarde, Andrei pinta o ícone da Trindade, tomando a releitura que os padres da Igreja fizeram dos três anjos sob o carvalho de Mambré, como relatado no Antigo Testamento. Andrei pinta-os com uma idêntica fisionomia, sentados à mesa, com um dos lados desocupado, justamente aquele que está diante da pessoa que observa o ícone, como que convidando-o para participar do banquete da Trindade. Sob a mesa está o cálice e o convite é para a vivência da comunhão, para a vivência de um profundo amor.

Essa é a concepção de juízo para Andrei, um Deus que convida à comunhão, que não pode obrigar seus filhos a ela, por tê-los dado a liberdade, o inferno será ficar de fora dessa festa e o que ocorre se dá pela livre rejeição do convite divino. Assim compreende-se também que imagem de Deus Andrei quis apresentar em seu ícone.

Nas primeiras cenas do filme vê-se um homem que constrói um balão e alça vôo, sobe alto, de lá vê pessoas, animais e campos, porém ele cai. Creio que essa seja uma maneira simbólica de tratar a vontade de transcendência do homem, vontade de ir além de si mesmo, de atingir o infinito. Que, todavia, ao tirar Deus de cena, ou seja, querer transcender por si mesmo, deixando Deus de lado e negando-o, acaba por cair (pecado), desabando como um castelo de cartas de baralho, porque é um ser limitado e só chega a uma verdadeira transcendência a partir do convite divino e por meio d’Ele.

Conclui-se, que o desejo de transcendência humano só se torna efetivo quando o homem consegue compreender a grandeza de um Deus que lhe convida a sentar-se e comer com Ele, elevando-o a condição de igualdade, em uma vida de comunhão fraterna. O convite é d’Ele, a resposta é sua! [1]

Murah Rannier Peixoto Vaz[2]


[1] Originalmente publicado no blog “Shallon Revolution”: http://shalomrevolution.blogspot.com/search?q=rublev.

[2] Seminarista da Diocese de Ipameri, no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Crítica cinematográfica, Opinião, Teologia

Trindade: convite à comunhão – Parte I

Ícone da Trindade, de Rublev

O filme “Andrei Rublev”, do diretor Andrei Tarkovsky, gravado no ano de 1966, é ambientado na Rússia do início do séc. XV. Destacam-se entre os personagens três monges: Danila, Cirilo e Andrei, que no filme é biografado de forma romanceada e até mesmo poética. Em torno deste último é que o filme se desenvolverá e em torno de quem as cenas e todos os diálogos giram. Andrei vive em constante conflito interno devido a uma não aceitação do juízo final como uma cena de medo, mas entende-a como uma cena de amor, de acolhida.

Assim como Andrei se questiona, o filme quer levar seus espectadores a se questionarem sobre: Qual imagem de Deus eu tenho? Qual é a minha imagem de juízo final? A partir dessas questões surgem outras: Que imagem de Deus e do juízo final eu apresento aos outros? Que tipo de fé vamos colocar na Igreja? Em que consiste o julgamento?

Ao questionarmos sobre que imagem de Deus estamos oferecendo, convém refletirmos sobre em que imagem de Deus nós cremos. Se na imagem de um Deus amoroso, um Deus Pai misericordioso e acolhedor, ou se cremos e apresentamos um Deus contabilista, que provoca medo, que anota os pecados para nos cobrar, um Deus vingativo, que pune e castiga.

Alguns dos diálogos do filme são de imensa profundidade ao analisar tais questões. O monge iconógrafo, Andrei, em um dado momento do filme, faz a seguinte afirmação: “Só tem medo quem não ama”. Esta será sua grande dificuldade, porque não consegue pintar o quadro do juízo final aos moldes como era pintado por outros pintores e iconógrafos.

Um dos ajudantes de Andrei quando era torturado pelos tártaros disse: “Deus fará suas tripas arderem no fogo da Geena”. Será mesmo que Deus faria algo assim? Pouco depois os tártaros despejam um líquido fervente em sua boca e assim o filme mostra que uma atitude tal como essa é possível aos homens, mas não pode ser atribuída a Deus.

O filme aborda reflexões sobre o mal, o sofrimento e a dor. De onde elas viriam, poderiam vir de Deus? De Deus não pode vir o mal, porque este, justamente, só existe em razão da ausência de bem ou do afastamento do bem. Do mesmo modo como as trevas e a escuridão só existem em decorrência da ausência de luz. Conseqüentemente, o mal só pode vir do próprio homem ao fazer o mau uso de sua liberdade, dádiva concedida por Deus.

“Massacram (…), violam (…), saqueiam (…)”, segundo Andrei, estes são os modos como os homens agem. Prosseguindo em seu diálogo, Andrei conta a Feafan um sonho que tivera e relata a fala de um tártaro, que assim se refere aos homens: “Mesmo sem nós, dareis cabo uns dos outros, como lobos”. Nessa fala percebe-se uma visão pessimista e negativa do homem, percebe-se também que o mal não surge apenas de uma nação contra a outra, um povo contra o outro, mas parte do próprio homem em suas relações. Como visto no momento em que, por ciúmes, Cirilo abandona o mosteiro e se volta contra os monges. Logo após, ele descarrega todo o seu ódio no pobre cachorro que correu para acompanhá-lo, ou como, por exemplo, na rivalidade entre os dois príncipes, que são irmãos. Aqui, possivelmente, evoca-se a imagem de Caim e Abel.

Porém, diferentemente do que diz o tártaro, há no homem certa ambigüidade, como nessa fala de Andrei: “(…) Alguma coisa que não te sai ou estás cansado, e eis que encontras um olhar humano e é como se tivesse comungado, ficado mais leve. (…)”.De fato, cre-se que também a salvação passa pelo próprio homem e é Cristo quem apresenta ao homem a verdadeira humanidade, faz-se, ele mesmo, o Verbo divino incriado, carne, ou seja, torna-se um igual a nós, menos no pecado, e arma sua tenda em nosso meio, caminhando conosco nos convida a irmos com ele ao Pai, pela ação do Espírito.[1] [2]

Murah Rannier Peixoto Vaz[3]


[1] Este artigo possui continuação.

[2] Originalmente publicado no blog “Shallon Revolution”: http://shalomrevolution.blogspot.com/search?q=rublev.

[3] Seminarista da Diocese de Ipameri, no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Antropologia, Antropologia Filosófica, Filosofia, Metafísica, Opinião, Tomás de Aquino

A defesa da vida nos pressupostos da metafísica e da antropologia cristã

 

 

 

Hoje postamos a íntegra da Aula Inaugural proferida por Dom Adair José Guimarães, Bispo de Rubiataba-Mozarlândia, no auditório do Instituto na última sexta-feira, a título de abertura do ano acadêmico 2012. Antes da referida aula, o Sr. Bispo presidiu a Solene Eucaristia em ação de graças pelo período que se inicia, na qual se deu ainda a profissão de fé e compromisso de fidelidade dos novos professores.

Em seu discurso, intitulado “A defesa da vida nos pressupostos da metafísica e da antropologia cristã”, Dom Adair expôs a necessidade de se ter a filosofia cristã como paradigma de pensamento, especialmente em um Instituto Católico. A metafísica aristotélico-tomista é caminho seguro à verdade e caminho certo para se construir uma autêntica “cultura da vida”.

Dom Adair criticou duramente o relativismo cultural e teórico, que se distanciam da visão rica acerca do homem, própria da ontologia tomista, oriunda da compreensão objetiva de Deus. “A defesa da vida humana, bem como a defesa da vida do planeta precisam ter como fundamento a verdade (…) que é Deus”, afirmou com veemência.

Questões palpitantes, como as drogas, a compulsão sexual e a preservação do meio ambiente – do Cerrado, inclusive –, abordadas pelo Bispo, encontram na antropologia cristã, fundada na metafísica aristotélico-tomista, resposta segura.

 

Confiram a íntegra do texto: A defesa da vida nos pressupostos da metafísica e da antropologia cristã

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Descanse em paz, Steave!

No último dia 5 de outubro faleceu o fundador de uma das mais revolucionárias empresas de equipamentos para comunicação e entretenimento. Com 56 anos e considerado um dos maiores milionários do mundo, Steve Jobs faleceu após um duro combate contra o câncer, em tratamento desde 2007.

De suas mãos e de sua oficina é que saiu o primeiro computador portátil, nomeado “Macintosh” e posteriormente apelidado de “torradeira bege”, em virtude  do seu auto-aquecimento. Recentemente o mundo pôde desfrutar de suas últimas “obras primas”, iPods, iPhones e iPads. Steve revolucionou a maneira de ouvir música, de ler revistas, livros, assistir filmes. Foi dele também parte da produção de um dos primeiros desenhos classificado como filme, no ano de 1995, “Toy Store”. Caixas de bancos, computadores cada vez menores, mais leves e fáceis de serem usados, celulares com multi-funções… Tudo isso se deve ao empenho e esforço desse gênio da computação. Jobs dizia que todas as coisas já estão aí, basta a nós encontrá-las.  A Lei de Lavoisier afirma que, nesta vida, nada se cria, tudo se transforma.

Até que ponto tudo isso é realmente importante para a vida do homem? Sabemos que o homem é um ser que se comunica, se relaciona e interage com os outros. Que é um ser relacional e um comunicador nato. Desde as anômalas pinturas rupestres de nossos ancestrais sinais de fumaça, até o atual Facebook, o homem cada vez mais vem se aprimorando e aperfeiçoando os seus equipamentos de comunicação, diminuindo tempo e encurtando distâncias.

Em meio a tantos objetos comunicacionais e tecnológicos, será que o ser humano tem encontrado respostas para as suas perguntas mais remotas? Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Será que estes aparelhos têm preenchido o vazio da alma humana? Se digo que sim, porque então todos os anos são lançados novos aparelhos? Na maioria das vezes só se muda a embalagem ou a sua cor. Um detalhe aqui, um adereço ali, e pronto!

Temos uma avalanche de pessoas nos shoppings nas lojas e nos comércios para adquiri-los a pagar em suaves prestações a perder de vista. Se foram criados para melhorar a nossa vida, porque estamos cada vez mais nesta correria e estresse?  Ah! Poderia alguém dizer: – mas hoje em dia nos comunicamos muito mais! Há pessoas que se comunicam com milhares de outras pessoas todos os dias.  É verdade! Mas algo que não podemos deixar passar despercebido é que, às vezes – isto é, na maioria dos casos –, temos pessoas que conhecem mais da vida de quem mora do outro lado do mundo e, no entanto, são verdadeiros estrangeiros domiciliares.

Parece que relacionar-se com pessoas distantes e “fingir” que estão próximas é melhor do que se relacionar com as que estão geograficamente próximas. Para as geograficamente distantes, há sempre um recurso – sorrateiro, pode-se dizer – a ser usado, um “foto-shop”. É mais agradável, engraçado, belo, místico. Tem-se uma idéia de mundo perfeito e lindo. Quanto às geograficamente próximas, temos que lidar com seu mau-humor, seus tiques e “TPMs”, engolir sapos e dizer que está tudo bem, dar um soco na cara e no dia seguinte pedir desculpas e recomeçar ou, simplesmente, nunca mais falar com elas.

As pedras de um rio são lascadas, lapidadas pelo contato umas com as outras e assim se tornam lisas, uniformes e belas, verdadeiras obras de arte que a natureza faz com suas próprias mãos. Aquilo que as impedia de serem melhores é trabalhado, é tirado fora. Porém as pedras que ficam sobre o solo, ou enterradas nele dificilmente vão sofrer alterações. Serão sempre do mesmo jeito, pontiagudas feias e irregulares, estúpidas. Acredito que o ser humano também é assim. É lapidado no contato com os outros.

A sociedade do terceiro milênio, diferentemente dos outros dois milênios passados, está mudando rapidamente, a tecnologia e os meios de comunicação têm grande influencia neste desenvolvimento, mas infelizmente os valores morais que foram adquiridos ao longo destes vinte séculos estão se perdendo quase que na velocidade da luz. Abortos, homossexualismo, dependentes químicos, violências físicas e sexuais principalmente na família são cada vez mais comuns. Algo que há alguns anos atrás era tido como abominável, hoje em dia é comum, e, às vezes, até mesmo louvável.

Por que será que o ser humano do terceiro milênio, que se comunica, que se relaciona muito mais do que o dos outros dois milênios passados, está agindo desta forma? Por que será que estamos cada vez mais estúpidos, intimistas e indiferentes? Parece que o conhecimento adquirido, ao invés de humanizar este homem, está na verdade o animalizando, tornando-o alienado.

Somos eternos devedores de Steve, o mundo todo lhe é muito grato por tudo o que ele nos proporcionou. Tantas noites mal dormidas, tantos cansaços, tantos esforços para tornar a nossa vida melhor, mais colorida, mais agradável, mais vivida, mais prática. Obrigado, Steve! Você cumpriu a sua missão aqui na terra, assim como tantos outros “gênios” da história. Cabe agora a nós não descuidarmos de tal bem e não fazer dele um mal. Cabe a nós não fazer com que o paraíso se torne um inferno. Um futuro melhor está em nossas mãos, depende de como vamos fazer para que ele se atualize.

Descanse em paz Steve!

Adnilson Pedro Gomes[1]


[1] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 1º ano de Filosofia.