Publicado em Crítica cinematográfica, Opinião, Teologia

Trindade: convite à comunhão – Parte II

Cena do Filme "Andrei Rublev"
O ator Anatoli Solonystin em cena do Filme "Andrei Rublev"

Voltando à questão da imagem de Deus e do juízo, Cirilo ao travar diálogo com Feafan sobre as obras de Andrei, faz a seguinte observação: “Falta-lhe qualquer coisa, falta-lhe o medo, a fé.” Assinala-se aqui a incompreensão da visão amorosa de Deus que tem Andrei. Em outro momento, o próprio Andrei ao travar uma conversa com Feafan, lhe diz: “Se apenas se apelar para o mal, nunca haverá felicidade perante Deus.” Danila, insistindo com Andrei para que este pinte logo o quadro do juízo final, lhe diz:

“É só pintar. (…) Estamos a perder um tempo ótimo! Quente e seco! Há muito teríamos acabado a cúpula e os pilares. Com cores fortes e expressivas! Com pecadores a arder no inferno… de maneira a provocar arrepios. Imaginei cá um diabo! Assim, a fumegar pelo nariz.”

Andrei o interpela: “O problema não está no fumo (fumaça)! Vai contra mim. Dá-me nojo! Não quero assustar o povo. Compreende-me, Danila!” Crendo que o visível nos faz contemplar o invisível e que ele torna-se uma janela por onde se entrevê o absoluto, Andrei não acredita em uma tal imagem de Deus e do juízo, como as propostas por Danila, e prefere não pintar a ser incoerente consigo mesmo.

No entanto, em um momento de reflexão, Andrei se levanta e diz: “É uma festa”. Esta é a conclusão à qual chega o pintor, esse é o juízo! Anos mais tarde, Andrei pinta o ícone da Trindade, tomando a releitura que os padres da Igreja fizeram dos três anjos sob o carvalho de Mambré, como relatado no Antigo Testamento. Andrei pinta-os com uma idêntica fisionomia, sentados à mesa, com um dos lados desocupado, justamente aquele que está diante da pessoa que observa o ícone, como que convidando-o para participar do banquete da Trindade. Sob a mesa está o cálice e o convite é para a vivência da comunhão, para a vivência de um profundo amor.

Essa é a concepção de juízo para Andrei, um Deus que convida à comunhão, que não pode obrigar seus filhos a ela, por tê-los dado a liberdade, o inferno será ficar de fora dessa festa e o que ocorre se dá pela livre rejeição do convite divino. Assim compreende-se também que imagem de Deus Andrei quis apresentar em seu ícone.

Nas primeiras cenas do filme vê-se um homem que constrói um balão e alça vôo, sobe alto, de lá vê pessoas, animais e campos, porém ele cai. Creio que essa seja uma maneira simbólica de tratar a vontade de transcendência do homem, vontade de ir além de si mesmo, de atingir o infinito. Que, todavia, ao tirar Deus de cena, ou seja, querer transcender por si mesmo, deixando Deus de lado e negando-o, acaba por cair (pecado), desabando como um castelo de cartas de baralho, porque é um ser limitado e só chega a uma verdadeira transcendência a partir do convite divino e por meio d’Ele.

Conclui-se, que o desejo de transcendência humano só se torna efetivo quando o homem consegue compreender a grandeza de um Deus que lhe convida a sentar-se e comer com Ele, elevando-o a condição de igualdade, em uma vida de comunhão fraterna. O convite é d’Ele, a resposta é sua! [1]

Murah Rannier Peixoto Vaz[2]


[1] Originalmente publicado no blog “Shallon Revolution”: http://shalomrevolution.blogspot.com/search?q=rublev.

[2] Seminarista da Diocese de Ipameri, no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Crítica cinematográfica, Opinião, Teologia

Trindade: convite à comunhão – Parte I

Ícone da Trindade, de Rublev

O filme “Andrei Rublev”, do diretor Andrei Tarkovsky, gravado no ano de 1966, é ambientado na Rússia do início do séc. XV. Destacam-se entre os personagens três monges: Danila, Cirilo e Andrei, que no filme é biografado de forma romanceada e até mesmo poética. Em torno deste último é que o filme se desenvolverá e em torno de quem as cenas e todos os diálogos giram. Andrei vive em constante conflito interno devido a uma não aceitação do juízo final como uma cena de medo, mas entende-a como uma cena de amor, de acolhida.

Assim como Andrei se questiona, o filme quer levar seus espectadores a se questionarem sobre: Qual imagem de Deus eu tenho? Qual é a minha imagem de juízo final? A partir dessas questões surgem outras: Que imagem de Deus e do juízo final eu apresento aos outros? Que tipo de fé vamos colocar na Igreja? Em que consiste o julgamento?

Ao questionarmos sobre que imagem de Deus estamos oferecendo, convém refletirmos sobre em que imagem de Deus nós cremos. Se na imagem de um Deus amoroso, um Deus Pai misericordioso e acolhedor, ou se cremos e apresentamos um Deus contabilista, que provoca medo, que anota os pecados para nos cobrar, um Deus vingativo, que pune e castiga.

Alguns dos diálogos do filme são de imensa profundidade ao analisar tais questões. O monge iconógrafo, Andrei, em um dado momento do filme, faz a seguinte afirmação: “Só tem medo quem não ama”. Esta será sua grande dificuldade, porque não consegue pintar o quadro do juízo final aos moldes como era pintado por outros pintores e iconógrafos.

Um dos ajudantes de Andrei quando era torturado pelos tártaros disse: “Deus fará suas tripas arderem no fogo da Geena”. Será mesmo que Deus faria algo assim? Pouco depois os tártaros despejam um líquido fervente em sua boca e assim o filme mostra que uma atitude tal como essa é possível aos homens, mas não pode ser atribuída a Deus.

O filme aborda reflexões sobre o mal, o sofrimento e a dor. De onde elas viriam, poderiam vir de Deus? De Deus não pode vir o mal, porque este, justamente, só existe em razão da ausência de bem ou do afastamento do bem. Do mesmo modo como as trevas e a escuridão só existem em decorrência da ausência de luz. Conseqüentemente, o mal só pode vir do próprio homem ao fazer o mau uso de sua liberdade, dádiva concedida por Deus.

“Massacram (…), violam (…), saqueiam (…)”, segundo Andrei, estes são os modos como os homens agem. Prosseguindo em seu diálogo, Andrei conta a Feafan um sonho que tivera e relata a fala de um tártaro, que assim se refere aos homens: “Mesmo sem nós, dareis cabo uns dos outros, como lobos”. Nessa fala percebe-se uma visão pessimista e negativa do homem, percebe-se também que o mal não surge apenas de uma nação contra a outra, um povo contra o outro, mas parte do próprio homem em suas relações. Como visto no momento em que, por ciúmes, Cirilo abandona o mosteiro e se volta contra os monges. Logo após, ele descarrega todo o seu ódio no pobre cachorro que correu para acompanhá-lo, ou como, por exemplo, na rivalidade entre os dois príncipes, que são irmãos. Aqui, possivelmente, evoca-se a imagem de Caim e Abel.

Porém, diferentemente do que diz o tártaro, há no homem certa ambigüidade, como nessa fala de Andrei: “(…) Alguma coisa que não te sai ou estás cansado, e eis que encontras um olhar humano e é como se tivesse comungado, ficado mais leve. (…)”.De fato, cre-se que também a salvação passa pelo próprio homem e é Cristo quem apresenta ao homem a verdadeira humanidade, faz-se, ele mesmo, o Verbo divino incriado, carne, ou seja, torna-se um igual a nós, menos no pecado, e arma sua tenda em nosso meio, caminhando conosco nos convida a irmos com ele ao Pai, pela ação do Espírito.[1] [2]

Murah Rannier Peixoto Vaz[3]


[1] Este artigo possui continuação.

[2] Originalmente publicado no blog “Shallon Revolution”: http://shalomrevolution.blogspot.com/search?q=rublev.

[3] Seminarista da Diocese de Ipameri, no 3º ano de Teologia no IFTSC.