Publicado em Eclesiologia, Resenhas, Teologia

A IGREJA: ÍCONE DA TRINDADE (Resenha)

O livro Igreja ícone da Trindade (Edições Loyola, 2005, 75 páginas), do arcebispo, doutor em teologia e filosofia, Bruno Forte, apresenta a concepção teológica que a Igreja tem de si mesma a partir do Concílio Vaticano II. É resultado de um seminário sobre o catolicismo romano organizado pelo Instituto Ecumênico de Bossey (Suíça) que aconteceu em maio de 1983. Na base de sua estrutura estão três questões que formas as três partes do livro: de onde vem a Igreja? O que é a Igreja? Para onde vai a Igreja? Ao longo do livro o autor procura responder estas três questões fundamentando-se, principalmente, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, buscando a todo o momento demonstrar e confirmar que a Igreja é ícone da Trindade.

Para dizer de onde vem a Igreja, o autor recorda a concepção eclesiológica que se tinha antes do Vaticano II, caracterizada pelo “cristomonismo”, que ressaltava, sobretudo, a dimensão visível e institucional. No século XX, houve muitas reações contra essa concepção, provocando a necessidade de uma renovação na Igreja. Destacando não o aspecto visível, mas o seu aspecto ‘mistérico’, estas reações foram acolhidas e desenvolvidas no Concílio Vaticano II. Buscando uma verdadeira renovação, todo esse evento foi permeado pela reflexão eclesiológica à partir da fidelidade a Jesus Cristo, Senhor e Luz das nações. Conforme Bruno Forte, o olhar da Igreja para a Igreja em uma perspectiva cristológica, sacramental e antropológica fez superar muitos reducionismos eclesiológicos e a levou a ver como mistério, cuja fonte é o mistério Trinitário. A partir disso o autor enfatiza que a eclesiologia do Vaticano II é trinitária e que a Igreja tem na Trindade sua origem, estruturação, finalidade e consumação. Quanto à sua origem, ela faz parte dos desígnios de Deus, realizados por Cristo e confirmados pelo Espírito. Ela é sacramento de unidade prefigurada na Criação e tendente à consumação final. É uma realidade manifestada plenamente por Cristo, de quem ela recebeu as graças necessárias para prolongar no mundo sua ação salvífica, por meio do Espírito Santo. Assim, a Igreja desejada pelo Pai, criada no Filho e vivificada no Espírito Santo é trinitária por excelência, tendo aí sua fonte, origem, características e dinamicidade que tende à consumação no seio trinitário.

Ao responder a pergunta o que é a Igreja, Bruno Forte lembra-se do aspecto hierárquico e piramidal tão determinante na Igreja antes do Concílio. Aquela compreensão sofreu uma brusca mudança e agora a Igreja é vista em sua totalidade, povo de Deus, que são todos os batizados que formam a comunidade dotada de carismas e ministérios. A hierarquia permanece, pois foi querida por Deus, mas não mais a única realidade visível, representante da Igreja. Entre o povo de Deus estão os clérigos, leigos (e os religiosos) que participam do sacerdócio comum de Cristo à seu modo, mas exercendo o que lhe é próprio. Nessa nova compreensão, uma das grandes novidades é a valorização do leigo no mundo, reconhecendo seu importante lugar na vida de santidade da Igreja, com direitos e deveres. Esta guinada de compreensão resultou numa verdadeira e profunda eclesiologia de comunhão, tendo sempre como fonte, modelo e impulso a Trindade. É uma comunhão se expressa misteriosamente, de modo privilegiado, na Palavra e nos Sacramentos, especialmente do Batismo e da Eucaristia. É uma comunhão ministerial chamada à tríplice função profética, sacerdotal e régia. Sua visibilidade é concretamente e plenamente realizada nas Igrejas locais, na pessoa do bispo, unido ao Romano Pontífice, através dos meios necessários. Pelo fato de cada Igreja local encontrar-se em relação com as demais, realiza-se assim a universalidade da Igreja que tem no Primado de Pedro o sinal visível dessa união.

Mas, para onde vai a Igreja que tem origem na Trindade e é comunidade de comunhão? Lembrando que a comunhão eclesial é constituída na unidade e na diversidade dos carismas e ministérios, o autor afirma que a Trindade não é só a fonte dessa realidade, como também é o seu cume. Assim, o dinamismo da Igreja é impulsionado por esta abertura para o futuro escatológico que ela “já” experimenta, mas “ainda não” totalmente. Nesse itinerário, a Virgem Maria aparece como Mãe e Modelo, ícone da Igreja. O autor lembra também da união entre a Igreja militante, padecente e triunfante que futuramente se encontrarão em um só lugar, no seio trinitário. Porem, nesta tensão entre o “já” e o “ainda não”, situa-se também a realidade do pecado na Igreja que não a mancha, pois é indefectivelmente santa, mas necessita de contínua purificação. A partir dessa constatação, o caminho de “união” com a Trindade passa a ser compreendido mais amplamente, considerando também aqueles que não fazem parte da perfeita comunhão da Igreja. É na realidade militante que todas estas coisas são consideradas, rezadas e trabalhadas na tensão escatológica final, na esperança da suprema e perfeita união de tudo na Trindade. Ela que é a fonte, a ordem e o fim da Igreja. É por isso que a Igreja é ícone da Trindade.

De modo suscito, mas profundo e embasado no Vaticano II, o autor do livro que ora foi apresentado transmite uma compreensão realista e equilibrada da Igreja. Ele não só retoma os principais pontos da Lumen Gentium, como também, de modo sutil e fazendo uso de poucos argumentos, os aprofunda e os explica claramente, possibilitando uma maior compreensão do mistério que está sendo tratado. Por trás das perguntas que ele se propôs a responder, está o interesse em saber qual a verdadeira identidade e missão da Igreja, bem como o modo como ela se organiza dinamicamente para efetivar o que é e faz. Claramente o autor demonstra que a Igreja vem da Trindade, se organiza a partir dela, por isso é comunidade de comunhão, e tende à união com Ela. Por sua origem, modo e fim, é justo concluir que a Igreja é sacramento visível da Trindade invisível, imagem da comunidade de amor, prefiguração do que se espera no céu, no seio trinitário. No entanto, por ser sinal visível, ela está submetida às vicissitudes do tempo e do espaço, ainda que não se corrompa por eles. Em seu seio estão incluídos os homens que vivem na tensão entre a santidade e o pecado, necessitando por isso da constante purificação, da contínua santificação. Mas, estas realidades transitoriais não lhes impedem de ser o que é, fazer o que deve e buscar o que almeja.

Mário Correia[1]

Goiânia, 28 de outubro de 2011.


[1] Seminarista da Diocese de Barreiras, no 3º ano de Teologia no IFTSC.

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O PEQUENO PRÍNCIPE: A NOVIDADE DO ENCONTRO

“O Pequeno Príncipe” é um dos livros mais vendidos no mundo[1]. O livro de Antoine de Saint-Exupéry, escrito em 1943 atinge gerações diversas. Essa obra também serve de fonte de pesquisa para diversos ensaios e estudos na área da psicologia, filosofia, política, sociologia e pedagogia.

Dizem que sua leitura tem por fenômeno, o rompimento de barreiras de idades e personalidades. Tal peculiaridade se dá pelas densas e variadas interpretações que aparecem em cada nova leitura que se faz. É claro que esse fato ocorre com a leitura de qualquer outra obra, mas as novidades encontradas no “O Pequeno Príncipe” dialogam com as fazes da história de quem o leu em etapas diferentes da vida de forma bem peculiar. O contato com essa obra gera uma capacidade tamanha de identificação do leitor com o conteúdo do próprio livro, de identificação consigo mesmo e de encontro com outro.

Por exemplo, a última vez que li esse livro, fiquei extremamente intrigado com outra percepção que tive a do encontro do homem com sua história de vida. Com a percepção de todo o cenário: o avião, as viagens sobrevoando a China e o Arizona, a pane no deserto do Saara… foram propícios para eu perceber como aviador, sem planejamento algum, se deparou com a solidão, cujo estado se tornou favorável para encontrar-se consigo mesmo e, por conseguinte, com sua própria história “…preparei-me para empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte.”

Depois de todo cenário montado, com o surgimento quase que repentino e misterioso do principezinho, a “peça” estava pronta para consolidar o que eu havia suspeitado a respeito do encontro consigo mesmo. Tal conclusão se consolidou principalmente a partir da interpretação feita pelo príncipe diante do desenho que o aviador havia lhe mostrado…

Prefiro não comentar muito aqui sobre esse livro e sim conversar sobre ele. Prefiro permitir que o leitor interessado encontre essa obra sem muitos comentários alheios, a fim de preservar novas surpresas que ainda não percebi, para assim encontrar espaços para novas partilhas que encerram em encontros com a vida do próximo que vai além da minha limitada ótica. “É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.” Enquanto isso, encontrarei um espaço para ler novamente.

Arpuim Aguiar Araújo[2]


[1] É o terceiro livro mais vendido do mundo. Possui cerca de 134 milhões de exemplares vendidos, 8 Milhões no Brasil. Foi traduzido em mais de 220 línguas e dialetos. (http://www.opequenoprincipe.com/historia.html – acesso em: 03 de maio de 2012)

[2] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 1º ano de Teologia no IFTSC.