Publicado em Profeta, Teologia

Oséias, um profeta para o nosso tempo!

 Oséias foi um profeta do Reino do Norte, e exerceu seu ministério profético num período onde Israel enfrentou diversas dificuldades, como por exemplo, as conquistas assírias que ocorreram por volta de 732-734. Da sua vida temos poucos dados, e esses são narrados nos capítulos de 1-3, dados esses que são de fundamental importância para entendermos a sua ação profética.

Segundo a Escritura (Os 1-3), Oséias havia casado com uma mulher que ele amava, mas ela o abandonou. Mesmo diante dessa situação, o profeta continuou a amando e a recebeu novamente, depois de um tempo de provas e sofrimentos. Essa experiência que marcou profundamente a história do profeta se tornou símbolo do comportamento de Javé para com o seu povo. Israel como uma noiva, foi desposada por Javé, depois, se portou como uma mulher infiel, uma prostituta, provocando assim, o ciúme, a ira e furor de seu divino esposo, o qual não deixou de amá-la, mas castigou e a reconduziu a si, devolvendo a alegria do seu primeiro amor.

Oséias de forma prática e incisiva nos mostra a relação entre Javé e seu povo (Israel), através da alegoria do matrimônio. O centro de sua mensagem está em demonstrar o amor fiel por parte de Javé e o desprezo por parte do povo.

O sistema religioso, político e social desse período estavam totalmente corrompidos. Com isso, o profeta repreendeu os reis que foram escolhidos contra a vontade de Javé. Os sacerdotes que de modo imprudente levavam o povo ao aniquilamento.  Condenava as injustiças sociais e a violência que eram práticas frequentes nesse período. Além de combater a infidelidade religiosa, que associava o culto a Baal à Javé. O profeta protesta que o título “Senhor” deve ser dado somente a Javé e não mais a nenhum outro deus. Diante desse contexto que estava em profunda crise, Oséias anuncia que nosso Deus, é um Deus ciumento, que deseja possuir sem divisão o coração de seu povo, mais do que qualquer sacrifício, o que Deus quer é a conversão de seu povo: “É amor que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (6,6). Como consequência dessa infidelidade por parte do povo, Deus irá os castigar, com o objetivo de salvá-los, para que assim eles convertam e voltem novamente arrependidos ao seu Senhor.

O tempo do deserto será o tempo propício para um novo recomeço, onde o povo de Israel será “seduzido” novamente pelo seu Senhor, para que assim haja um novo casamento, uma verdadeira renovação da aliança total e eterna entre Deus e seu povo.

Essa breve análise do livro do profeta Oséias nos ajuda a atender como a sua mensagem é atual em nosso tempo hodierno. Esse mesmo Deus que faz uma aliança com seu povo, que o desposa como a esposa amada, continua a agir em nossa história. Hoje, ao olharmos para nossa realidade, percebemos quantas “traições” e “prostituições” por parte da humanidade ante a esse Deus que continua fiel a aliança. O homem moderno declara a “morte de Deus”, dá o seu grito de “independência” e faz a opção de agir de acordo com seu bel prazer. Mas mesmo assim Deus permanece fiel (emet), a fidelidade de Deus não é uma fidelidade passiva e indiferente, mas uma fidelidade ativa, comprometida, misericordiosa, que não se cansa e nem se esmorece. O amor misericordioso (hesed) de Deus é aquele que se compadece, que se entrega até o ponto de se rebaixar para salvar aqueles que se encontram desviados do caminho certo, porque na verdade o que Deus quer é a conversão verdadeira e total da pessoa humana: “Eu te desposarei pela justiça, e pelo direito, pelo amor e pela ternura, eu te desposarei na fidelidade e conhecerás o Senhor” Os 2,21.

Outra característica enfática de Oséias é o conhecimento de Deus. O nosso Deus é um Deus que se dá a conhecer, que se revela. Aqui precisamos nos atentar no que diz respeito ao conhecimento, para não cairmos no risco de pensarmos, que conhecimento se reduz somente ao aspecto cognitivo, intelectual. Quando o profeta fala sobre o conhecimento de Deus, ele vai além do cognitivo, ele apresenta o conhecimento como relação íntima e pessoal de convivência e diálogo. É assim que o homem deve “conhecer” a Deus.

Oséias denomina o povo de Israel, como um povo que se prostituiu e adulterou. A prostituição, consiste no amor degenerado, que leva Israel a assimilar a religião cananéia, cultuando outros deuses, desvalorizando o amor total de Deus. E o adultério que destroça o amor conjugal, causando a ruptura das relações de aliança com Deus. Mais exatamente, as relações iniciais e fundamentais entre Israel e seu Deus que são apresentadas como se fossem laços matrimoniais, a história religiosa de Israel é a história de um amor conjugal destruído por Israel.

Ao entendermos essa realidade, podemos pensar que esse foi somente, mais um capítulo da história do povo de Deus lá no passado. Mas não, esse é também um capítulo atual de nossa história. Analisando a nossa realidade hodierna, encontramos os diversos “cultos” que constantemente o homem presta a outros “deuses” como, por exemplo, o “deus” do dinheiro, do egoísmo, da auto-suficiência, do individualismo…, da mesma forma que Deus agiu com o seu povo lá no passado para que eles não se perdessem, Ele quer continuar agindo hoje, através da força de esplendorosa de seu amor misericordioso (hesed), para o que o homem moderno converta o seu coração e volte a Ele.

Contudo, para atingir tal objetivo, precisamos entender a pedagogia de Deus. Ele age de uma forma belíssima nessa nobre missão de resgatar e salvar o homem. O passo inicial se chama primeiro amor, a pregação de Oséias se fundamenta no princípio que, desde o início Javé e Israel se entregaram mutuamente de coração “Quando Israel era um menino, eu o amei, e do Egito chamei meu filho” (11,1). Deus libertou seu povo da escravidão do Egito, o episódio do Êxodo é como uma gestação, onde se criou os laços de filiação. O tempo do amor pleno entre ambos, a época do noivado, do primeiro amor.

O segundo passo é o da ruptura. O profeta descreve detalhadamente a separação radical das relações da aliança. Essa ruptura causou consequências gravíssimas em todos os sentidos, religioso, político, social, econômico etc., a vivência do amor hesed que garante toda ordem e subsistência à comunidade foi totalmente fragmentado e desfacelado, trazendo profundas e drásticas consequências para o povo.

Rompendo com os laços vitais da aliança com Deus, o povo se encontra numa situação de dispersão e castigo, eis ai o terceiro passo. Diversos oráculos de Oséias narram o anúncio de um grande castigo, eis o tempo da esterilidade. Se afastando da fonte da vida, não se pode gerar. As opções erradas que Israel optou, resultou no seu próprio castigo, chegando ao ponto de não mais poder se libertar e de ser destruída pela ira do Senhor.

Mesmo diante de toda essa situação drástica e de morte, o castigo tem uma finalidade: resgatar e salvar o povo. O castigo não é uma vingança por parte de Deus, mas é um meio que pode libertar o homem da sua condição de pecado e morte, nesse caso, ele tem uma perspectiva de esperança e salvação.

Por fim, o último passo, o novo destino. Segundo Oséias, essa fase consiste num retorno do povo as disposições do primeiro amor, ou seja, a última etapa das relações entre Deus e Israel. Aqui consiste o noivado, o tempo do deserto, o retorno às origens, cuja finalidade será um novo, feliz e fecundo encontro entre Deus e seu povo. A concretização de uma nova aliança feliz e fecunda.

Como é bonita e profunda a pedagogia de Deus, que age e continua agindo na história. Pedagogia essa que atinge o homem em sua totalidade, que dá a ele uma nova possibilidade de vida. É um processo, lento, exigente, desafiador, mas que restaura e salva. Diante dos diversos problemas enfrentamos no nosso dia a dia, e da realidade que nos interpela cotidianamente, podemos cair no desânimo, e até pensarmos que não há mais o que fazer, porque já está tudo comprometido, por esse sistema estrutural de pecado, de infidelidade, de prostituição. Mas, ao olharmos para a história e ministério de Oséias, uma esperança invade o nosso ser e nos impulsiona a continuar sem esmorecer. Ante a nuvem opaca do pecado que ofusca o Sol da liberdade e da graça, somos convidados a ter a mesma fé e ousadia de Oséias para profetizarmos para o homem moderno, que o Deus de Israel, o Deus de Jesus Cristo, é o Deus do amor hesed, o Deus que se dá a conhecer, que faz uma aliança com o seu povo, e que mesmo havendo a infidelidade, ele permanece fiel. Ele castiga, porque ama, porque quer que seus filhos sejam restaurados e vivificados, por isso os leva ao deserto, os “seduz” novamente, restabelecendo os vínculos de relação por meio da aliança. E assim, possibilita ao homem uma nova vida de graça e santidade.

 

Referências Bibliográficas

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, Paulus, 2004.

LACY, J. M. Abrego de. Os Livros Proféticos. Vl 4. São Paulo, Ave Maria, 2006.

[1]Maximiliano Costa


[1] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 3º ano de Teologia no IFTSC

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Festa da Exaltação da Santa Cruz

Esta festa surgiu  no ano de 355, por ocasião da inauguração das duas grandes basílicas na cidade de Jerusalém: a do Calvário e a do Santo Sepulcro. A construção destas duas basílicas foi ordenada pelo imperador Constantino. O lenho da cruz foi descoberto por Santa Helena. Esta cruz tinha sido levada para a Pérsia e depois retornou a Jerusalém.

Para nós a cruz é um ponto de referência muito importante para a nossa fé e para a nossa esperança. Foi por meio dela que Cristo nos salvou e nos libertou; ela simboliza o preço pago pela nossa salvação. Quando somos apresentados à comunidade cristã, na cerimônia batismal, o primeiro sinal de acolhida é o sinal da cruz traçado em nossa fronte pelo padre, pais e padrinhos, sinalando-nos para sempre com Cristo. Contudo, o caminho da cruz se torna um caminho de luz, caminho de ressurreição. Quem quer seguir Jesus, precisa negar a si mesmo, pegar a sua cruz do dia a dia e segui-Lo. O discípulo de Cristo precisa segui-Lo em todas as circunstâncias, não só nos momentos alegres, mas também nos de dificuldade. Precisamos assumir a nossa cruz e seguir Jesus oferecendo nosso sofrimento, em união com a cruz d’Ele.

No tempo de Jesus, a cruz consistia numa haste vertical fixada no chão e uma trave horizontal que era carregada pelo condenado até o local do seu suplício. O condenado era preso na haste e era levantado. Jesus carregou a trave horizontal de Jerusalém até o Monte Calvário, local de Sua morte. Nós precisamos estar dispostos a carregar a nossa cruz com a certeza da vitória final, da ressurreição. A cruz era instrumento de suplício, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos, mas se tornou, depois da morte de Cristo, motivo de glória. Deus poderia ter escolhido outros caminhos para nos salvar, mas escolheu o caminho da cruz, do sofrimento. Não parou, evidentemente, na cruz, na Paixão. A Paixão conduziu Jesus à ressurreição, à vitória final sobre a morte, o pecado, o demônio. Olhando para a cruz, que é sinal do amor maior de Deus para conosco, podemos ver como o Pai amou tanto o mundo a ponto de mandar Seu Filho não para condenar o mundo, mas para salvá-lo.

Diac. Ueslei Vaz Aredes[1]


[1] Seminarista da Diocese de Itumbiara, no 4º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Catecismo da Igreja Católica, Teologia

O HOMEM É CAPAZ DE DEUS (II) – SÍNTESE DOS §§ 26-35 DO CIC

E “Deus vem ao encontro do homem” (2º cap.). Abordaremos os parágrafos 27- 73. Iremos até o 1º artigo do 2º capítulo. O 2º e 3º artigo (transmissão da fé e a Sagrada Escritura).

III. O conhecimento de Deus segundo a Igreja: A Santa Igreja atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas. Sem esta capacidade, o homem não poderia acolher a revelação de Deus. O homem tem esta capacidade porque foi criado à imagem de Deus (Gn 1, 27).

IV. Como falar de Deus? Dado que o nosso conhecimento de Deus é limitado, a nossa linguagem, ao falar de Deus, também o é. Não podemos falar de Deus senão a partir das criaturas e segundo o nosso modo humano limitado de conhecer e de pensar. Todas as criaturas são portadoras duma certa semelhança de Deus, muito especialmente o homem, criado à imagem e semelhança de Deus. As múltiplas perfeições das criaturas (a sua verdade, a sua bondade, a sua beleza) refletem, pois, a perfeição infinita de Deus. Daí que possamos falar de Deus a partir das perfeições das suas criaturas: porque a grandeza e a beleza das criaturas conduzem, por analogia, à contemplação do seu Autor (Sb 13, 5). Pois, Deus transcende toda a criatura. Devemos, portanto, purificar incessantemente a nossa linguagem no que ela tem de limitado, de ilusório, de imperfeito, para não confundir o Deus inefável, incompreensível, invisível, impalpável com as nossas representações humanas. As nossas palavras humanas ficam sempre aquém do mistério de Deus. Devemos lembrar-nos de que, entre o Criador e a criatura, não é possível notar uma semelhança sem que a dessemelhança seja ainda maior, e de que não nos é possível apreender de Deus o que Ele é, senão apenas o que Ele não é, e como se situam os outros seres em relação a Ele.

Deus vem ao Encontro do Homem: Pela razão natural, o homem pode conhecer Deus com certeza, a partir das suas obras. Mas existe outra ordem de conhecimento, que o homem de modo nenhum pode atingir por suas próprias forças: a da Revelação divina. Por uma vontade absolutamente livre, Deus revela-Se e dá-Se ao homem. E faz revelando o seu mistério, o desígnio benevolente que, desde toda a eternidade, estabeleceu em Cristo, em favor de todos os homens. Revela plenamente o seu desígnio, enviando o seu Filho bem-amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo.

Diac. Ueslei Vaz Aredes[1]


[1] Seminarista da Diocese de Itumbiara, no 4º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Eclesiologia, Resenhas, Teologia

A IGREJA: ÍCONE DA TRINDADE (Resenha)

O livro Igreja ícone da Trindade (Edições Loyola, 2005, 75 páginas), do arcebispo, doutor em teologia e filosofia, Bruno Forte, apresenta a concepção teológica que a Igreja tem de si mesma a partir do Concílio Vaticano II. É resultado de um seminário sobre o catolicismo romano organizado pelo Instituto Ecumênico de Bossey (Suíça) que aconteceu em maio de 1983. Na base de sua estrutura estão três questões que formas as três partes do livro: de onde vem a Igreja? O que é a Igreja? Para onde vai a Igreja? Ao longo do livro o autor procura responder estas três questões fundamentando-se, principalmente, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, buscando a todo o momento demonstrar e confirmar que a Igreja é ícone da Trindade.

Para dizer de onde vem a Igreja, o autor recorda a concepção eclesiológica que se tinha antes do Vaticano II, caracterizada pelo “cristomonismo”, que ressaltava, sobretudo, a dimensão visível e institucional. No século XX, houve muitas reações contra essa concepção, provocando a necessidade de uma renovação na Igreja. Destacando não o aspecto visível, mas o seu aspecto ‘mistérico’, estas reações foram acolhidas e desenvolvidas no Concílio Vaticano II. Buscando uma verdadeira renovação, todo esse evento foi permeado pela reflexão eclesiológica à partir da fidelidade a Jesus Cristo, Senhor e Luz das nações. Conforme Bruno Forte, o olhar da Igreja para a Igreja em uma perspectiva cristológica, sacramental e antropológica fez superar muitos reducionismos eclesiológicos e a levou a ver como mistério, cuja fonte é o mistério Trinitário. A partir disso o autor enfatiza que a eclesiologia do Vaticano II é trinitária e que a Igreja tem na Trindade sua origem, estruturação, finalidade e consumação. Quanto à sua origem, ela faz parte dos desígnios de Deus, realizados por Cristo e confirmados pelo Espírito. Ela é sacramento de unidade prefigurada na Criação e tendente à consumação final. É uma realidade manifestada plenamente por Cristo, de quem ela recebeu as graças necessárias para prolongar no mundo sua ação salvífica, por meio do Espírito Santo. Assim, a Igreja desejada pelo Pai, criada no Filho e vivificada no Espírito Santo é trinitária por excelência, tendo aí sua fonte, origem, características e dinamicidade que tende à consumação no seio trinitário.

Ao responder a pergunta o que é a Igreja, Bruno Forte lembra-se do aspecto hierárquico e piramidal tão determinante na Igreja antes do Concílio. Aquela compreensão sofreu uma brusca mudança e agora a Igreja é vista em sua totalidade, povo de Deus, que são todos os batizados que formam a comunidade dotada de carismas e ministérios. A hierarquia permanece, pois foi querida por Deus, mas não mais a única realidade visível, representante da Igreja. Entre o povo de Deus estão os clérigos, leigos (e os religiosos) que participam do sacerdócio comum de Cristo à seu modo, mas exercendo o que lhe é próprio. Nessa nova compreensão, uma das grandes novidades é a valorização do leigo no mundo, reconhecendo seu importante lugar na vida de santidade da Igreja, com direitos e deveres. Esta guinada de compreensão resultou numa verdadeira e profunda eclesiologia de comunhão, tendo sempre como fonte, modelo e impulso a Trindade. É uma comunhão se expressa misteriosamente, de modo privilegiado, na Palavra e nos Sacramentos, especialmente do Batismo e da Eucaristia. É uma comunhão ministerial chamada à tríplice função profética, sacerdotal e régia. Sua visibilidade é concretamente e plenamente realizada nas Igrejas locais, na pessoa do bispo, unido ao Romano Pontífice, através dos meios necessários. Pelo fato de cada Igreja local encontrar-se em relação com as demais, realiza-se assim a universalidade da Igreja que tem no Primado de Pedro o sinal visível dessa união.

Mas, para onde vai a Igreja que tem origem na Trindade e é comunidade de comunhão? Lembrando que a comunhão eclesial é constituída na unidade e na diversidade dos carismas e ministérios, o autor afirma que a Trindade não é só a fonte dessa realidade, como também é o seu cume. Assim, o dinamismo da Igreja é impulsionado por esta abertura para o futuro escatológico que ela “já” experimenta, mas “ainda não” totalmente. Nesse itinerário, a Virgem Maria aparece como Mãe e Modelo, ícone da Igreja. O autor lembra também da união entre a Igreja militante, padecente e triunfante que futuramente se encontrarão em um só lugar, no seio trinitário. Porem, nesta tensão entre o “já” e o “ainda não”, situa-se também a realidade do pecado na Igreja que não a mancha, pois é indefectivelmente santa, mas necessita de contínua purificação. A partir dessa constatação, o caminho de “união” com a Trindade passa a ser compreendido mais amplamente, considerando também aqueles que não fazem parte da perfeita comunhão da Igreja. É na realidade militante que todas estas coisas são consideradas, rezadas e trabalhadas na tensão escatológica final, na esperança da suprema e perfeita união de tudo na Trindade. Ela que é a fonte, a ordem e o fim da Igreja. É por isso que a Igreja é ícone da Trindade.

De modo suscito, mas profundo e embasado no Vaticano II, o autor do livro que ora foi apresentado transmite uma compreensão realista e equilibrada da Igreja. Ele não só retoma os principais pontos da Lumen Gentium, como também, de modo sutil e fazendo uso de poucos argumentos, os aprofunda e os explica claramente, possibilitando uma maior compreensão do mistério que está sendo tratado. Por trás das perguntas que ele se propôs a responder, está o interesse em saber qual a verdadeira identidade e missão da Igreja, bem como o modo como ela se organiza dinamicamente para efetivar o que é e faz. Claramente o autor demonstra que a Igreja vem da Trindade, se organiza a partir dela, por isso é comunidade de comunhão, e tende à união com Ela. Por sua origem, modo e fim, é justo concluir que a Igreja é sacramento visível da Trindade invisível, imagem da comunidade de amor, prefiguração do que se espera no céu, no seio trinitário. No entanto, por ser sinal visível, ela está submetida às vicissitudes do tempo e do espaço, ainda que não se corrompa por eles. Em seu seio estão incluídos os homens que vivem na tensão entre a santidade e o pecado, necessitando por isso da constante purificação, da contínua santificação. Mas, estas realidades transitoriais não lhes impedem de ser o que é, fazer o que deve e buscar o que almeja.

Mário Correia[1]

Goiânia, 28 de outubro de 2011.


[1] Seminarista da Diocese de Barreiras, no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Homilias, Teologia, Trindade

TRINDADE: FUNDAMENTO DA VIDA CRISTÃ

(Solenidade da Santíssima Trindade, 03/06/2012)[1]

  Evangelho: Mt 28,16-20

 “Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

 

Caríssimos irmãos e irmãs,

 1. Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade. A princípio podemos indagar sobre qual a necessidade de tal festa, ou, por qual razão ela nos é proposta. Em virtude do que Ela, a Santíssima Trindade, significa para nós, temos muito a comemorar. Toda a ação da Igreja é movida por Ela e Nela se realiza. Toda a História da Salvação, da criação até a vinda de Cristo, se deu por Seu dinamismo. Cada pessoa da Trindade, na unidade da distinção e sem confusão de papeis, opera a Graça que lhe cabe na hora devida. Assim, gostaria de relembrar a missão que cada pessoa da Trindade, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, realizou no decorrer da história salvífica e continua realizando em nossas vidas. Na origem e no fim de tudo está a comunhão dessas três pessoas. Uma não existe sem a outra; na ação de uma, todas as outras estão presentes.

 2. O livro do Gênesis inicia afirmando que “no princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). E o livro da Sabedoria diz: “Sim, tu amas tudo o que criaste, não te aborreces com nada do que fizeste; se alguma coisa tivesses odiado, não a terias feito. E como poderia subsistir alguma coisa, se não a tivesses querido? Como conservaria sua existência, se não a tivesses chamado?” (11,24-25). Ora, essa é essencialmente a missão de Deus-Pai. Toda a criação é fruto de suas mãos. Na origem de tudo está Deus-Pai que quer dar início a uma história de amor; num relacionamento aberto e recíproco entre Ele e o ser humano. Um diálogo de liberdade em que o único privilegiado é o homem. A factualidade da criação não está restrita ao passado, mas tudo se faz continuamente. A criação é o momento em que Deus dá o seu ser, a sua existência ao mundo. Em categorias filosóficas: o ser é; perdura por todo o sempre. Algo não pode ser por um tempo e depois deixar de ser, assim, Deus continua a nos dar o seu ser. “Ele não só cria, mas mantém a obra criada” (CIC 301). Eis a necessidade que temos Dele! Afastar-se de Deus é afastar-se de sua essência, que é o amor. O cristão é cotidianamente convidado a se sentir parte da obra de Deus. No exercício da vida cristã somos introduzidos num relacionamento paternal com Deus. Se a nossa prática de fé não nos estimula a um contato com Deus criador, corremos o risco de nos sentirmos donos do mundo, e tudo será avaliado segundo as nossas vontades.

3. No ápice da história da salvação se encontra a figura de Jesus, o filho de Deus. Na carta aos Gálatas, Paulo afirma: Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” (4,4). A plenitude dos tempos significa o momento determinado por Deus para se manifestar de forma definitiva e substancial; não haverá outra. Em Cristo se manifestou toda a bondade de Deus. Por meio Dele sabemos que temos um Deus que é Pai, e assim, nos ensinou a chamá-lo. Por meio Dele somos agraciados com a condição de filhos de Deus, e, consequentemente, merecedores de seus bens. Portanto, Cristo opera a obra da redenção. Nele somos salvos do pecado e da morte e colocados numa situação de merecedores dos bens eternos. Cristo, o Filho, assume nossas faltas e na cruz nos coloca de novo em comunhão com Deus-Pai. O verdadeiro cristão é aquele que se identifica com Cristo-Filho e assume o mesmo caminho traçado por Ele. O Cristão nada mais é do que outro Cristo. Isso implica levar a fio todo o seu modo de ser, existir e pensar. “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5), assim se expressa São Paulo na carta aos Filipenses.

 4. Como garantia de sua eterna presença no meio de nós, o Deus-Filho nos prometeu enviar o seu Espírito. Não se trata de um espírito qualquer, mas do Espírito Santo, o paráclito. “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26). Ora, a obra do Espírito é essa mesma: recordar o que Jesus nos ensinou; garantir que Cristo estará sempre presente em nosso meio. A vinda do Espírito Santo significa que agora somos nós os continuadores da missão de Jesus. Ao passo que damos continuidade à missão de Jesus, realiza-se em nós a graça da santificação. Assim, o Espírito Santo tem a missão de santificar todas as coisas em Cristo. A Igreja vive e é movida pelo Espírito; podemos dizer que Ela é templo do Espírito Santo. Somos movidos e impulsionados por sua ação. Que bom seria se sempre fôssemos capazes de ser dóceis ao seu impulso! Muitas vezes abafamos sua ação e colocamos como centro motivador os nossos gostos e o nosso querer. A Igreja só realiza verdadeiramente sua missão quando Ela se prostra diante do suave, mas, ao mesmo tempo, intenso sopro do Espírito, capaz de abalar as estruturas e trazer a novidade e refazer todas as coisas. O Cristão deve clamar a presença do Espírito para que a nossa vida se torne uma oferta agradável a Deus.

 5. Caríssimos irmãos e irmãs, aqui está o mistério de nossa fé, o fundamento da vida cristã. A Palavra de Deus nos diz que devemos ser batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O batismo, porta de entrada para a vida cristã, nos insere desde o início nesse mistério. Quer dizer que passamos a fazer parte da Santissima Trindade; somos inseridos nela por meio de Cristo. E o fim último do fiel é a sua participação plena na comunhão da Trindade. Fomos gerados por Ela no batismo e repousaremos Nela no fim de nossa vida. Por conseguinte, o discípulo é aquele que vive sob o dinamismo da Santíssima Trindade. Que deixa ser conduzido por Ela. Que estabelece uma relação fiel e saudável com cada uma das três pessoas.

 6. Que Deus, uno e trino, nos dê a graça de sermos sensíveis para percebermos sua presença atuante em nosso meio. E assim, entrarmos no ativo relacionamento de amor da Trindade, para que, desse modo, sejamos criaturas novas, a fim de restaurar todas as coisas no amor.

 

Paulo Ricardo Moreira Vivaldo[2]


[1] Homilia proferida pelo autor na Disciplina “Homilética” e indicada pelo prof. Pe. Joaquim Cavalcante para publicação no Blog do Instituto.

[2] Seminarista da Diocese de São Luis de Montes Belos, no 4º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Ano da Fé, Cristologia, Magistério da Igreja, Teologia, Trindade

INTRODUÇÃO À PRIMEIRA PARTE DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA (CIC)

ImagePretendemos fazer um caminho pedagógico semelhante a uma escola da fé. Nada mais justo que começar com a origem e a profissão da fé. Adentraremos na primeira parte do nosso catecismo: a “profissão da fé”. Exploraremos os primeiros concílios ecumênicos de caráter cristológico e trinitário, no qual foi discutido sobre a divindade e a humanidade de Jesus e sobre as três pessoas da Santíssima Trindade: um único Deus em três Pessoas, a saber, uma única essência em três Pessoas Distintas.

Constataremos que as dúvidas de fé dos primórdios eram semelhantes as nossas. Destarte, afirma Santo Agostinho: “devemos compreender para crer e crer para compreender”. Portanto, vamos buscar dar razões de nossa fé. Jamais esquecendo que a razão e a fé devem caminhar e estar completamente unidas: semelhante aos nossos pulmões ou semelhante às duas asas dum pássaro.

De início é necessário lembrar que a “profissão de fé” (o creio ou credo), é dividida em quatro partes. Quando professamos nossa fé nos domingos e solenidades afirmamos que cremos em: 1) Deus Pai Todo-Poderoso, 2) Jesus Cristo Salvador, seu único Filho – e que não teve irmãos uterinos ou sanguíneos, 3) no Espírito Santo e 4) na Igreja Una, Santa, Apostólica e Católica.

A parte: “profissão da fé” do Catecismo da Igreja Católica (CIC) inicia-se no parágrafo 26 e vai até o parágrafo 1065 do mesmo. Em suma, é uma parte completamente dogmática, cristológica, antropológica e eclesiológica.

Do parágrafo 26 ao 66 o CIC destaca dois movimentos, a saber, um imanente-antropológico no qual “o homem é ‘capaz’ de Deus” e outro transcendente-cristológico: “Deus vem ao encontro do homem”. Apresentaremos estes dois movimentos no próximo texto.

Diácono Ueslei Vaz Aredes[1]


[1] Seminarista da Diocese de Itumbiara, no 4º ano de teologia.

Publicado em Antropologia, Antropologia Teológica, Cristologia

A RELAÇÃO DO SER HUMANO COM DEUS UNO E TRINO REVELADO POR CRISTO

Este texto é de um resumo da conferência feita por P. Spencer Custódio Filho (SJ), na semana acadêmica do Instituto Santa cruz, em 06.06.2012. Construída segundo a compreensão de quem a produziu. Nela faz-se alusão a termos usados pelo conferencista, bem como a expressões na íntegra. Mas o conteúdo exposto neste resumo é de responsabilidade de seu autor.

A Igreja levou um longo tempo para assimilar a relação entre a teologia e as ciências humanas. O Vaticano II trouxe uma forte contribuição para uma revisão acerca do olhar sobre e para o homem. Temos aqui o primeiro momento em que a Igreja aborda o tema da antropologia, enquanto ciência. O Vaticano também colabora para um diálogo e aproximação com as ciências humanas, uma vez que, salvo exceções, a teologia era elaborada – fala-se aqui enquanto referencial – por uma filosofia dogmática.

No século XIX, diante da teologia liberal alemã (protestantes) e dos pressupostos metodológicos das ciências críticas no estudo bíblico e dogmático, há um estímulo no que e para o que toca a teologia cristã católica. Um convite à discussão (interpelação), enquanto referencial e interlocução. O fato do pouco contato com a bíblia é um fator que interpela no que toca a esta questão – lembrando que ainda hoje muitos cristãos católicos têm pouca relação com a Bíblia enquanto dado da Revelação. Assim podemos afirmar, também, que o Concílio Vaticano II “abriu um horizonte intelectual de leitura da Sagrada Escritura e elementos científico-culturais”.

Na virada do século XIX para o seguinte, Loysy provoca a uma “aplicação de métodos histórico-críticos no estudo da Sagrada Escritura e do dogma”, motivado pela convicção de que o “povo estava imerso na dúvida”. Houve um forte conflito com o pensamento oficial da Igreja, que procurou desacelerar tal discussão que, mais largamente, por outros campos e reflexões, se dava no limiar do século XX, mais que já antes vinha sendo elaborada. Houve, por parte da e na Igreja, uma “afirmação da neo-escolástica (do séc. XIX) e um distanciamento entre catolicismo e modernidade”.

No contexto do Vaticano II houve uma “lenta renovação” trazida pela reflexão de teólogos como Marechal, Lubac, Danielou, Congar e outros. No séc. XX,  houve uma evocação, muito presente no Vaticano II e até como propósito deste, de nos colocar (enquanto Igreja) e contextualizar no tempo presente, um convite a uma “modernização”. E, de fato, o Concílio conseguiu nos deslocar para o século XX, para aquelas reflexões que já vinham e se fortaleceram no início desse século. O Vaticano II usou uma linguagem nova, de aproximação/diálogo (evocação à atualização), de tal forma, que se abriu a “releituras bíblicas que mudaram a compreensão e a própria leitura da Bíblia e dos fatos” (vida/“cotidiano”).

Houve, por parte dos dominicanos franceses, uma renovação do tomismo da escolástica medieval. Esse contexto gerou uma grande contribuição para o estudo da teologia, com aceno para Karl Rahner (SJ), no tocante à antropologia. A teologia se lança “dentro” da vida das pessoas, uma vez que houve uma forte “aproximação entre antropologia e cristologia”. A questão do Cristo histórico ganha força e adentra profundamente por meio de muitas reflexões. A humanidade de Cristo o apresenta como pessoa que provoca paixão e estreita nossos laços com o Pai, pois Ele nos revela o Pai. Mediante uma leitura antropológica, temos a possibilidade e oportunidade de encontrar e ver muitas coisas novas e fascinantes, uma vez que o “humano de Jesus revela e autocomunica sua divindade”. Fala-se aqui de um cristo inserido no tempo (menos na dimensão do pecado).

Segundo P. Spencer (SJ): “A razão da encarnação é o ‘apaixonamento’ de Deus”.

Renato Eduardo da Silva Costa[1]


[1] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 1º ano de Teologia no IFTSC.