Publicado em Liturgia, Teologia

Do espetáculo à singeleza: um olhar sobre a sexta-feira da paixão

O tempo da quaresma tem como finalidade nos preparar para vivermos bem o mistério pascal de Cristo, sua paixão, morte e ressurreição. Mistério que celebramos de modo evidente no tríduo pascal, ápice do ano litúrgico, quando Jesus vence a morte, “ressuscitando ao terceiro dia”[1], salvando toda a humanidade de seus pecados.

Quero me deter agora à Sexta-feira da Paixão. A liturgia nos ensina que esse dia deve ser de jejum, oração, recolhimento e silêncio, é o único dia do ano em que não se celebra a Eucaristia, em sinal de luto pela morte e sepultamento de Jesus. A Ação Litúrgica da Paixão, com todos os seus gestos e símbolos: altar despojado, sem toalhas, sem cruz, sem velas, sem adornos, recorda-nos a morte de Jesus. Os ministros se prostram no chão, frente ao altar, no começo da celebração. Gesto que demonstra a imagem da humanidade rebaixada e oprimida e, ao mesmo tempo, penitente, que implora perdão por seus pecados. As vestes são vermelhas, a cor dos mártires: de Jesus, o primeiro testemunho do amor do Pai e de todos aqueles que, como Ele, deram e continuam dando sua vida para proclamar a libertação que Deus nos oferece. A adoração da Cruz nos lembra a obra da cruz, o Cristo que reuniu na unidade os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo inteiro e constituiu o novo povo eleito[2].

Por longa data, esse dia foi sendo vivenciado e enriquecido pelos gestos e ações da piedade popular, de forma especial aqui no Brasil: a via sacra rezada pelo povo simples e humilde, o canto do perdão diante do Senhor morto, a meditação das sete dores de Nossa Senhora, a procissão do encontro e do Senhor morto[3]. Essas práticas devocionais acabaram se tornando um grande patrimônio da fé do povo e, unidas à liturgia oficial do dia, propiciam às pessoas o encontro com Deus, consigo mesmas e com os outros.

Atualmente, venho percebendo que a vivência litúrgica da Sexta-feira da Paixão está perdendo seu sentido basilar, sendo substituída pelos grandes espetáculos que têm como enredo a vida, morte e ressurreição de Jesus. O dicionário define espetáculo como uma “representação pública que impressiona e é destinada a entreter”, e também como aquilo que “atrai a vista ou prende a atenção”[4].  Com isso, a sexta-feira da paixão torna-se mais um entretenimento, cuja apresentação principal é a vida de Jesus nos grandes palcos, com atores famosos, luzes e cores; perdendo seu milenar caráter de dia de silêncio e oração, quando somos convidados a olhar para o mistério da Cruz de Cristo da qual pendeu a nossa salvação e a olhar também para dentro de nós mesmos e perceber o que ainda precisa ser modificado, transformado, convertido. É preciso resgatar o verdadeiro sentido litúrgico a ser vivido pelo nosso povo nesse dia tão especial. Ressalto que devemos viver bem esse dia, mas não nos “estacionarmos” nele, porque o melhor está por vir: a ressurreição de Cristo, celebrada na Vigília Pascal.

Quando olhamos para o mistério da encarnação de Jesus, percebemos que esse grande evento para a história da humanidade não aconteceu em forma de espetáculo, mas na singeleza, no seio de uma família simples de Nazaré; o Emmanuel nasce em uma manjedoura[5], em meios aos animais, como celebramos no tempo do Natal. O Senhor sempre se revela nas coisas simples e cotidianas. O extraordinário acontece de forma bela no ordinário. Por isso precisamos trilhar um caminho de conversão na Sexta-feira Santa, dia tão importante para nossa fé: passar do espetáculo à singeleza, do entretenimento, que muitas vezes nos tira da realidade, para um olhar profundo dentro de nós mesmos, que nos possibilite uma verdadeira conversão, para que, desse modo, possamos viver melhor.

O segredo de vida dos grandes santos como Terezinha de Jesus, Francisco de Assis, Teresa de Calcutá… é fantástico! Eles encontravam no ordinário, o extraordinário; o grande espetáculo era viver bem as pequenas coisas que lhes eram confiadas no dia a dia. Aí reside o grande segredo da santidade: a vivência singela do amor. E não há dia mais propício para vivermos isso do que a Sexta-feira Santa.

Diante do sofrimento, da cruz, da morte do Senhor, encontro o verdadeiro sentido para o meu sofrimento, a minha cruz, a minha morte, pois isso só tem sentido em minha vida se é configurado na vida de Cristo[6]. Isso edifica a pessoa humana em todas as suas dimensões, possibilita-lhe encontrar o verdadeiro sentido para a sua existência. O caminho é esse, do silêncio, da oração, de olhar para dentro de si e não de se entreter, fugindo, muitas vezes, daquelas realidades interiores que carecem ser revistas e convertidas. Toda essa transformação não acontece de forma “espetacular”, mas de forma simples, singela como o silêncio de Jesus na Cruz.

Maximiliano Costa[7]


[1] cf. 1 Cor 15,4.

[2] Missal Romano, n. 15 a 17.

[3] Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Diretório sobre a Piedade Popular e Litúrgica – Princípios e orientações.

[4] Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa.

[5] cf. Lc 2,4-16.

[6] cf. João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici Doloris, 1984.

[7] Seminarista da Arquidiocese de Goiânia, no 3º ano de Teologia no IFTSC.

Publicado em Liturgia, Opinião

Tempo do Advento, Natal e Sagrada Família

O Tempo do Advento inicia-se quatro domingos antes do Natal. Neste ano, nas vésperas do dia 26 de novembro de 2011, sábado, a partir das 15 horas (encerrando o ciclo litúrgico do ano A – Mateus e iniciando o ano B – Marcos) e termina sempre no dia 24 de dezembro, com a comemoração do nascimento de Cristo (dando início ao Tempo do Natal).

Este Tempo possui dupla característica: é um tempo propedêutico para a solenidade do Natal, em que comemoramos a vinda do Filho de Deus entre os homens, e também um tempo em que, por meio deste venerável acontecimento, se voltam os corações para a expectativa da vinda de Cristo no fim dos tempos (período escatológico). Portanto, o tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa expectativa da vinda do Messias.

Tudo fica belo: as avenidas são enfeitadas, em nossas casas armamos os presépios. Isto é, preparamos o nosso coração para que seja o lugar do nascimento do Menino-Deus, Jesus. Por isso, o Tempo do Natal é um tempo de festa. Poderia uma mãe ficar triste após o nascimento de seu filho? Imagina só a humanidade que desde o princípio aguarda ansiosamente o Salvador?

A comemoração mais venerável para a Igreja é o Natal do Senhor e suas primeiras manifestações. Este tempo vai da véspera do Natal de Nosso Senhor até o domingo depois da festa da aparição divina, em que se comemora o Batismo de Jesus. No ciclo do Natal são celebradas as festas da Sagrada Família, de Maria, mãe de Jesus e do Batismo de Jesus.

A Festa da Sagrada Família, Jesus, Maria e José, será celebrada este ano no dia 31 de dezembro. Como diz o Pe. Zezinho: “Tudo seria bem melhor/ Se o Natal não fosse um dia/ E se as mães fossem Maria/ E se os pais fossem José/ E se os filhos parecessem/ Com Jesus de Nazaré”

Ueslei Vaz Aredes[1]


[1] é seminarista da Diocese de Itumbiara, no 3º ano de Teologia do IFTSC.

Publicado em Liturgia, Teologia

A Liturgia como epifania do mistério Tri-relacional

A liturgia, antes de tudo, é uma ação teândrica-eclesio-trinitária. Por isso mesmo, pode ser pensada como epifania do mistério tri-relacional. O mistério tri-relacional é o mistério trinitário, é o mistério de Deus em si mesmo, Pai, Filho e Espírito Santo, pensado na teologia como Trindade imanente e econômica, e celebrado como Trindade Litúrgica. Logo, o mistério da fé que professamos é o mistério trinitário celebrado como mistério tri-relacional.

O evento do monte Tabor nos ajuda a pensar a liturgia na perspectiva da fenomenologia do mistério. A celebração litúrgica é locus fenomenológico da economia do mistério. Nesse sentido, a liturgia é uma realidade que pode ser pensada também na ótica da metafísica. Antes de tudo, a liturgia é uma ação simbólica, apontando para “além de”. Na economia litúrgico-sacramental, o simbólico fala, comunica e remete para outra realidade sempre maior do que o que vemos e tocamos. A simbologia é a gramática da celebração. É, também, a linguagem do amor. Essa ação é fenomenológica, físico-real, marcada pela ótica dos sinais, a significação da linguagem da transcendência.

Portanto, Celebrar é transcender. É pregustar na terra o sabor do céu. Celebrar é mergulhar no transcendente fascinante, presente na imanência transitória. A liturgia como epifania do mistério de Deus nos faz sair do íntimo e secreto invólucro útero da história e nos insere no sacrário do amor que é o coração de Deus. A liturgia como epifania do mistério é o momento singular da fé eclesial no Deus Uno e tri-relacional.

Podemos dizer que o evento do Tabor é o paradigma da liturgia da Igreja. Nossas celebrações devem suscitar desejo de prolongar o tempo na presença do cordeiro ressuscitado e glorificado. Nossa liturgia deve levar à participação ativa e frutuosa, não ao ruído dispersivo e irritante. A epifania do mistério é alteridade que evoca continuidade, intimidade e intensidade na contemplação. É nesse sentido que entendemos a liturgia como epifania do mistério em ação.

Que mistério? O mistério trinitário, o mistério pascal e eclesial, o mistério da fé. Todo o mistério da fé aparece no mistério da transfiguração. O Pai proclama a primazia do seu amor para como o seu unigênito Filho. A nuvem é configuração da presença do próprio Deus. E sobre aquele monte, a Igreja, no Espírito, contempla, por Cristo, a glória escatológica – pois na pessoa dos discípulos estava toda a Igreja. [1]

Pe. Joaquim Cavalcante[2]


[1] Resumo do artigo apresentado na III Semana Acadêmica do Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz – “Metafísica – fundamentos e limites”, dia 12/09/2011.

[2] Professor no IFTSC, Escritor e Doutor em Teologia pela PUG-Roma