Publicado em Filosofia, Lógica

OS PRINCÍPIOS LÓGICOS (II)

Continuação do texto “Os princípios lógicos (I)”.

O Princípio do Terceiro Excluído ou de Exclusão

Trata-se de mera decorrência dos dois primeiros princípios. É estabelecido da seguinte forma: “Entre o ser e o não-ser não existe meio termo”. Ou seja, dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma afirmativa e outra negativa, uma delas é necessariamente verdadeira e a outra necessariamente falsa. ‘A é x ou não-x’, não havendo terceira possibilidade. Toda coisa deve ser verdadeira ou então falsa e manifesta suas características pelas quais é identificada, ou simplesmente não é e, neste caso, exclui as possibilidades contrárias.

Em lógica, inexiste meio termo entre verdade e falsidade. Dizer que algo é “mais ou menos” indica apenas intensidade que já é identidade. “O café está mais ou menos quente, ou morno” é um estado definido. Entre o preto e o branco existe o cinza, que é, igualmente, uma cor determinada. Assim, se algo é, ele o será verdadeiro – de acordo com uma realidade, ou será falso – em desacordo com uma realidade. Nunca mais ou menos verdadeiro ou mais ou menos falso. Relativamente às proposições, formula-se princípio de Exclusão dizendo que “Toda proposição ou é verdadeira ou é falsa, não havendo intermediário entre a verdade e a falsidade”.

O Princípio da Razão suficiente

Este princípio é também considerado como um dos princípios lógicos. Pode ser exposto assim: um enunciado é verdadeiro ou falso; se pretende ser ele verdadeiro, necessita uma razão que o fundamente, que o apoie. Chama-se a essa razão de “suficiente” quando, por si, é bastante para servir-lhe de completo apoio. É uma razão suficiente, quando não falta mais nada para que o enunciado seja verdadeiro.

O Princípio do silogismo

Outro princípio também considerado entre os lógicos é o Princípio do silogismo, que se pode enunciar assim: “Se a implica b e se b implica c, a implica c”. A implicação, no sentido lógico-formal, é uma relação que afirma que um enunciado resulta necessariamente de outro. Assim, por exemplo, “a lei da gravitação implica a da queda dos corpos”.

Antônio José Resende[1]

REFERÊNCIAS

COPI, Irving M. Introdução à lógica. Trad. Álvaro Cabral. 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1978.
PINTO, Mário. Elementos Básicos de Lógica. 4. ed. Belo Horizonte: PUC-MG/FUMARC, 1984.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
KNEALE, William e KENEALE, Martha. O Desenvolvimento da lógica. 3. ed. Trad.de M. S. Lourenço. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.


[1] Professor no IFTSC e na PUC-Goiás

Publicado em Filosofia, Lógica

OS PRINCÍPIOS LÓGICOS (I)

O raciocínio como resultado do encadeamento ordenado e com nexo de proposições que se relacionam e estabelecem dependência ou oposição entre si obedece a três princípios, condições de toda verdade, consagrados pela lógica, como sendo:

O Princípio de Identidade

Um ser é sempre idêntico a si mesmo: ‘A é A’. É o princípio da determinação e sobre ele pouco se pode dizer, visto tratar-se do óbvio. É expresso, simplesmente “O que é, é”. Significa que em todas as coisas existe uma identidade entre a sua noção e seus componentes. Ela é o conjunto de seus caracteres e, parcialmente, cada um deles. Ele enuncia a impossibilidade em que se encontra a mente humana de pensar uma noção e seus caracteres constitutivos como reciprocamente dissemelhantes. Assim, por exemplo, dizer “o homem é um animal racional” ou qualquer outra afirmação estabelece uma determinação que, sob algum aspecto e alguma maneira, é, existe e que não pode não ser. Aplicado às proposições, este princípio diz que “Toda proposição é equivalente a ela mesma”.

O Princípio de Contradição

Também denominado princípio de não-contradição. É uma decorrência do primeiro e que melhor o explica. É assim expresso: “Uma coisa não pode ser e não ser (ou deixar de ser) ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto”. Ou seja, é impossível que um ser seja e não seja idêntico a si mesmo ao mesmo tempo e na mesma relação. É impossível ‘A é A e não-A’. Quando uma noção é admitida ou aceita, isto implica que nossa mente não pode aceitar que a mesma não exista ou não ocorra, sob pena de incorrer num absurdo. Se é não pode deixar de ser. Assim, “Não posso ser eu e não ser eu”, como “Não posso estar aqui agora e não estar aqui agora”.

Note-se que a contradição envolve simultaneidade, pois sucessivamente pode existir em outro lugar, sem me contradizer. Da mesma forma, importa considerar a identidade dos aspectos, uma vez que sob aspectos diferentes não há contradição. Por exemplo, “Sócrates não pode ser rico e pobre” (sob o aspecto monetário), mas pode, perfeitamente, ser “pobre, monetariamente, e rico de espírito”. Nada impede que uma pessoa seja “aluno” e “professor”, ao mesmo tempo, sob aspectos diferentes. Aplicado às proposições, este princípio diz que “nenhuma proposição é verdadeira e falsa ao mesmo tempo”.

Antônio José Resende[1]

REFERÊNCIAS

COPI, Irving M. Introdução à lógica. Trad. Álvaro Cabral. 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1978.
PINTO, Mário. Elementos Básicos de Lógica. 4. ed. Belo Horizonte: PUC-MG/FUMARC, 1984.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
KNEALE, William e KENEALE, Martha. O Desenvolvimento da lógica. 3. ed. Trad.de M. S. Lourenço. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.


[1] Professor no IFTSC e na PUC-Goiás

Publicado em Autores Renomados, Filosofia, Filosofia Moderna, Metafísica

FILOSOFIA DE LEIBNIZ (II): OS FUNDAMENTOS DA MONADOLOGIA

Continuação do texto “Filosofia de Leibniz (I)

1. Leibniz elabora uma noção dinâmica do ser e rompe com a concepção mecanicista de Descartes que formula uma teoria geométrica e mecânica dos corpos. Ele explica os seres não como maquinas que se movem, mas como forças vivas.

2. Uma forma de acesso à compreensão de sua obra pode ser a partir de determinadas doutrinas lógicas por ele apresentadas, ou, por outra via, pode-se iniciar pela idéia de mônada. A Mônada é uma substância. Em Os Princípios da Filosofia ou a Monadologia, afirma o referido filósofo, que “A Mônada de que aqui falaremos não é outra coisa senão uma substância simples, que entra nos compostos; simples quer dizer sem partes. Teodicéia, § 10” (§ 1, p. 131).

Mônada é uma unidade elementar única, indivisível. Tem um certo número de propriedades, mas, por ser simples, não tem partes.

Diz Leibniz, tudo que é complexo é formado pelo simples, e as componentes simples últimas do complexo são os verdadeiros constituintes do mundo, enquanto os complexos são simplesmente produtos secundários da agregação dos simples. Com efeito, tudo o que ocupa espaço tem extensão e é, portanto, divisível e, por conseguinte, complexo.

Portanto, as componentes últimas do mundo têm de não ter extensão e, porque não a têm, não são materiais. Por conseguinte, o mundo real é constituído por uma infinidade de pontos metafísicos; e como estes itens sem extensão e indivisíveis não são materiais, têm de ser mentais.

Assim, o mundo consiste numa infinidade de itens espirituais que são como pontos ou, como muitos denominam, e às vezes o próprio Leibniz o diz, uma infinidade de almas, tudo, desde a mais importante delas, Deus, de quem tudo o resto depende, até a alma humana, que é a mônada particular que nos dá em primeiro lugar a idéia de substância, até os constituintes últimos do que, confusamente, concebemos como matéria.

3. Noção fundamental da metafísica de Leibniz: a matéria é essencialmente atividade, bem como, o universo é composto por unidades de força, as mônadas. Ele chega à noção de mônada mediante a experiência interior que cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma substancia ao mesmo tempo una e indivisível.

Tudo o que existe de complexo no mundo deve ser analisável em elementos mais simples. Se os elementos mais simples forem à mesma complexos, então têm de ser também analisáveis. Assim, acabaremos por chegar a elementos absolutamente simples que já não são analisáveis, os quais são os constituintes últimos do mundo.

Todavia, estes não podem ser materiais, porque parte da própria definição de matéria dizer que ela é algo dotado de extensão, e a extensão é, por definição, subdivisível. Obviamente, aquilo que já não é divisível não pode ser subdivisível. Assim, os constituintes últimos do mundo têm de ser não materiais e não podem ocupar espaço.

As mônadas têm consciência? Parece-nos que a resposta de Leibniz é afirmativa. Leibniz pressupunha que estes pontos últimos ou mônadas eram espíritos. Sabe-se que ele aceitava inquestionavelmente o princípio de Descartes de que tudo o que existe ou ocupa espaço ou é consciente (alma/intelecto).

No entanto, note-se que ao sustentar que as mônadas eram conscientes, Leibniz não foi ao ponto de supor que fossem universalmente autoconscientes. Pensava que as mônadas tinham percepções, tinham consciência de outras coisas para além delas próprias. Mas não afirma que as mesmas eram capazes de apercepção, isto é, a capacidade que uma consciência pode ter de estar consciente das coisas fora dela própria.

A realidade é constituída de “centros de força”, ou seja, centros de atividade, pontos ou átomos físicos e imateriais. Esses centros de força são “substâncias simples”, ou mônadas. Também denominou enteléquias para indicar a perfeição intrínseca que possuem.

Curioso notar que uma das teorias fundamentais da física do séc. XX diz que toda a matéria é redutível a energia, ou seja, que a energia é o constituinte último do universo físico. Pode-se considerar a acepção de Leibniz próximo desta idéia? Parece-nos que sim, uma vez que ele afirmava que toda a matéria era constituída por propensões para a atividade que não são em si próprias materiais.

Necessário se faz ponderar que no séc. XVII, o único vocabulário de que as pessoas dispunham para falar de centros não materiais de atividade era um rol conceitual composto de denominações como espírito, alma, mente etc., como os utilizados por Leibniz.

Neste cabedal conceitual contemporâneo do filósofo, admitia-se que a natureza consistia em matéria em movimento, e que o movimento não era intrínseco à própria matéria, mas tinha de ser comunicado ao mundo material a partir de uma fonte exterior. Leibniz não defendia esse pressuposto. Defendia que o movimento, ou a energia, ou a atividade, que é talvez o termo genérico mais adequado, é intrínseca aos constituintes últimos do mundo.

Influenciou os filósofos Frege e Russell, com a definição de que todas as proposições são verdadeiras (V) ou falsas (F). Proposições analíticas são verdades de razão; proposições sintéticas são verdades de fato. As verdades de razão são finitas e infinitas.

Existência. Propriedade da existência. 1) Só deus existe necessariamente; 2) a existência de tudo o mais depende de Deus optar por atribuir existência a essa coisa possível; 3) há infinitamente muitos indivíduos possíveis, coisas cujas noções completas são intrinsecamente coerentes.

Deus – há uma existência de sistemas possíveis – escolhe o melhor para criar. Deus contempla o inventário infindável de mundos possíveis, de sistemas possíveis de coisas que são coerentes umas com as outras e então, por ser perfeito, escolhe o melhor, isto é, o melhor dos mundos possíveis.

Tal escolha, não ocorre conforme o ponto de vista humano, prático, emocional, mas escolhe um modo mais abstrato e metafísico, ou seja, o mundo possível no qual há, grosso modo, a maior quantidade de existência.

Teoria da harmonia preestabelecida.

Razão necessária/conhecimento necessário.

Princípio da razão suficiente.

Se a nós nos parece que as coisas estão casualmente inter-relacionadas, é porque todo o cosmos é, desde o princípio e ao longo de sua história, a criação unitária de Deus, e as interconexões aparentes não são encadeamentos causais, mas uma harmonia preestabelecida que deriva desse fato.

Problema da liberdade da vontade. E o livre arbítrio existe? E o mal? Como explicar o problema do mal no mundo? Deus cria o mundo equipado. Cada indivíduo autodetermina-se perfeitamente. A pessoa age por consciência e autoconsciência, ou ao arrepio de sua verdadeira natureza?

Segundo Leibniz, Deus cria todas as outras mônadas que constituem o mundo e as equipa com uma natureza intrínseca, isto é, única em cada caso, que determina tudo o que fazem subsequentemente. Em outros termos, tudo o que acontece é preparado por Deus. A conexão causal aparente acaba por ser tão-só um qualquer tipo de correspondência ou paralelismo entre o que acontece numa coisa e o que acontece na outra.

Para a concepção de mundo de Leibniz, a força que determina cada indivíduo, uma vez desencadeada por Deus, é a natureza com que Deus equipou esse indivíduo. Neste sentido, no âmbito da liberdade, cada indivíduo autodetermina-se perfeitamente.

Philosophia perennis = plano do finalismo filosófico; pilosophi novis = âmbito especificamente científico/plano do mecanicismo científico.

Para Leibniz, extensão e movimento, figura e número são apenas determinações extrínsecas da realidade, que não vão além do plano da aparência, ou seja, do fenômeno. Prelecionam Reale & Antiseri,

A extensão (a res extensa cartesiana) não pode ser a essência dos corpos, porque por si mesma não basta para explicar todas as propriedades corpóreas. Por exemplo, como mostra Leibniz, não explica a inércia, ou seja, a relativa resistência que o corpo opõe ao movimento, a ponto de ser necessária uma “força” para desencadear tal movimento. O que significa que existe algo que está além da extensão e do movimento, que não é de natureza puramente geométrico-mecânica e, portanto, física, sendo assim de natureza metafísica, que é precisamente a “força”. É dessa força que derivam tanto o movimento como a extensão.

Cada mônada é diferente da outra (Os Princípios da Filosofia ou Monadologia, § 9). Todo ser criado está sujeito a mudança, e, por conseguinte, a mônada criada também (idem, § 10). A mudança ocorre por um princípio interno, já que uma causa externa não poderia influir em seu interior (Teodicéia, §§ 396 e 400, in Os Princípios da Filosofia ou Monadologia, § 11).

4. Caracterização das mônadas:

a) Percepção: pela percepção as mônadas representam as coisas do universo; cada um de per si espelha o universo todo;

b) A apercepção é a capacidade que a mônada espiritual tem de auto representar-se, isto é, de refletir; a mônada é consciência ou percepção consciente;

c) A apetição consiste na tendência de cada mônada de fugir da dor e desejar o prazer, passando de uma percepção para outra.

5. Há dois tipos de inconscientes: o inconsciente de percepção, próprio das simples mônadas enquanto são apenas “espelhos do universo”, e o inconsciente de imitação, pertencente apenas aos espíritos enquanto não são apenas espelhos, mas espelhos dotados de reflexão.

6. A razão dessa diferença encontra-se no fato de que as mônadas não possuem o mesmo grau de perfeição, como se segue:

a) no grau mais alto estão as “mônadas racionais”, com consciência e vontade;

b) depois as “mônadas sensitivas”, que são os animais dotados de apercepções e desejos;

c) por último, as “mônadas nuas”, corpos brutos que só têm percepções inconscientes e apetições cegas.

O melhor dos mundos possíveis e a harmonia preestabelecida

  • O universo compreendido como um todo, harmônico.
  • Relação com o modelo estoico: o universo é concebido à semelhança de um organismo pleno, cujas partes convivem numa harmonia natural e onde tudo é análogo a tudo.
  • Há uma harmonia preestabelecida, uma vez que os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras. Isto ocorre no instante da criação. Deus a realiza desse modo.
  • Deus escolhe o melhor dos mundos dentre todos aqueles que se apresentam como possíveis.

O homem e o seu destino

  • Como explicar a presença do mal no mundo?
  • E o livre arbítrio existe ou toda ação humana já está preestabelecida?
  • O mal se manifesta de três modos: metafísico, físico e moral.
  • Metafísico: é a fonte do mal moral, e deste ocorre o mal físico. O mal metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura, pois se ela fosse perfeita, seria o próprio Deus.
  • Mal moral: surge da relação da imperfeição da criatura e sua possibilidade de contemplar o Bem. A sujeição ao erro próprio da limitação da criatura.
  • Mal físico: uma consequência física da limitação original e uma consequência ética, donde decorre a punição do pecado.

Os pontos básicos da metafísica monadológica:

  • A natureza das mônadas como “força representativa”
  • Cada mônada representa o universo e é como um microcosmos
  • O princípio da identidade dos indiscerníveis
  • As leis da continuidade e seu significado metafísico
  • A criação das mônadas e a sua indestrutibilidade

As mônadas e a constituição do universo:

  • Explicação da materialidade e corporeidade das mônadas
  • Explicação da constituição dos organismos animais
  • A diferença entre as mônadas espirituais e as outras mônadas

A harmonia preestabelecida

Deus e o melhor dos mundos possíveis (o otimismo leibniziano)

As verdades de razão, as verdades de fato e o princípio da razão suficiente

A doutrina do conhecimento: o inatismo virtual ou a nova forma de “reminiscência”

O homem e o seu destino.

Princípios constitutivos da razão humana, segundo Leibniz:

  1. Princípio do melhor (Deus cria o melhor dos mundos possíveis).
  2. Princípio de não contradição (A é A e não pode ser não-A).
  3. Princípio da razão suficiente.
  4. Princípio ou Lei da continuidade.
  5. Princípio dos indiscerníveis.

Todos estes princípios são inatos, isto é, emanam da própria razão humana e a validade dos mesmos não depende da experiência.

A experiência só fornece a ocasião para o conhecimento dos princípios inatos do intelecto.

Antônio José Resende[1]


[1] Professor no IFTSC e na PUC-Goiás